Comunicação

Exposição de Marta Facco remete a reflexões sobre a obsolescência em nosso cotidiano


Mostra reúne 14 pinturas inspiradas em objetos descartados nas ruas e propõe reflexões sobre memória, consumo, desgaste e transformação.

Pedro Schmitt
21/08/2026 - 11h54min

A artista Marta Facco, autora da exposição Obsolescência, aberta nesta quinta-feira (20) na Alesc

A artista Marta Facco, autora da exposição Obsolescência, aberta nesta quinta-feira (20) na Alesc

FOTO: Jeferson Baldo/Agência Alesc

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Obsolescência é o tema da exposição da artista Marta Facco, que pode ser visitada até 3 de setembro, na Galeria Ernesto Meyer Filho.

São 14 telas com cores vibrantes pintadas a óleo, expostas em oito painéis, que resultam da observação demorada sob os descartes das coisas no nosso cotidiano.

É a terceira mostra do projeto da Gerência Cultural da Assembleia Legislativa, que selecionou, por edital lançado em 2025, seis artistas radicados em Santa Catarina.

Sobre

Marta Facco tem formação em artes plásticas, em São Paulo, Santa Maria (RS), mestrado e doutorado na Udesc, e pós-doutorado em Portugal. Vive em Florianópolis, onde é professora de artes e tem ateliê na Lagoa da Conceição.

Da fotografia de descartes às telas

As telas refletem registros fotográficos de cenas de descarte encontradas nas ruas, composições involuntárias formadas por móveis abandonados, colchões, cadeiras, armários, fragmentos de madeira, sacos e tecidos expostos ao tempo.

“Esses registros não funcionam como documentos objetivos, mas como arquivos sensíveis”, explica a artista. Da fotografia às telas, “coisas que ainda existem, mas já não ocupam o centro da vida e permanecem suspensas no tempo, entre a função e o desaparecimento, passando a habitar zonas de esquecimento”.

Processo artístico

Da fotografia à tela

1

Fotografia

A fotografia atua como etapa intermediária: captura o instante liminar em que o objeto ainda carrega marcas de uso, mas já perdeu sua função e seu lugar.

2

Transformação

A partir desses registros, a pintura não busca reproduzir fielmente a cena observada. O processo envolve deslocamento, recorte, ampliação e supressão.

3

Matéria

Interessa a narrativa do objeto e sua condição material: superfícies gastas, dobras, fissuras, manchas e camadas acumuladas. A matéria pictórica torna-se meio de incorporação do tempo.

4

Tela

Sobreposições, veladuras e apagamentos criam superfícies que evocam desgaste e transformação, transmutando a imagem em campo de sedimentação.

Artista desafia dualidades do cotidiano

Esse procedimento dialoga com a trajetória artística da autora, que investiga o ambiente doméstico, o descarte, a ruína e a memória, trabalhando com questões entre presença/ausência, morte/vida, externo/interno, que movem temas relacionados aos afetos que construímos, representados pelos objetos da casa, gerando assuntos como: abandono, desprezo, solidão, descaso, violência, desmonte, ruína, entre outros.

Exposição

Obsolescência

Quando o descarte vira presença

Resto Imagem

A pintura, nesse contexto, atua como gesto de suspensão. Aquilo que seria eliminado do campo da experiência cotidiana é reinscrito no espaço da arte. O objeto descartado deixa de ser resto para tornar-se imagem persistente e provocativa.

Função Presença

Esse intervalo, quase imperceptível, é ampliado pela pintura. O que seria descartado torna-se imagem. O que perderia função adquire presença. No espaço expositivo, as obras instauram um ambiente de suspensão.

Matéria Memória e afeto

Objetos deslocados de sua utilidade reaparecem como vestígios. O espectador encontra não apenas restos, mas camadas de tempo e significados. A obsolescência deixa de ser apenas destino e passa a ser estado: uma condição compartilhada entre matéria, memória e afeto.

A investigação

Assim, o projeto consolida uma investigação continuada sobre impermanência, memória e valor, articulando prática pictórica e observação urbana como modos de compreender a experiência contemporânea.

Reflexão estética e crítica

A relevância do projeto reside na capacidade de transformar essas cenas ordinárias em campo de reflexão estética e crítica.

Em um tempo atravessado pela lógica do consumo imediato, pela produção excessiva e pela superficialidade das relações humanas, os objetos descartados tornam-se metáforas visíveis da vida humana, de uma experiência mais ampla de desgaste e substituição.

“O que é deixado na calçada não é apenas matéria inutilizada, mas um indício das dinâmicas que organizam a vida contemporânea: ciclos rápidos, vínculos frágeis, permanências instáveis”, resume Marta Facco, cujo processo criativo inicia-se na observação atenta da cidade.


ALESC EXPLICA

Qual é o tema da exposição de Marta Facco?

A mostra trabalha a obsolescência a partir de objetos descartados no cotidiano e das relações entre desgaste, memória, função e desaparecimento.

Como surgem as pinturas da exposição?

O processo começa com fotografias de cenas de descarte encontradas nas ruas. A artista utiliza esses registros como ponto de partida para pinturas que passam por recortes, ampliações, supressões e outras transformações.

Quantas obras fazem parte da mostra?

São 14 telas pintadas a óleo, distribuídas em oito painéis.

Até quando a exposição pode ser visitada?

A exposição permanece na Galeria Ernesto Meyer Filho até 3 de setembro.

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