Muito antes de as primeiras nuvens se formarem sobre Santa Catarina, um aquecimento de poucos graus nas águas do Oceano Pacífico Equatorial já começa a alterar a circulação da atmosfera.
A mais de 10 mil quilômetros de distância, esse fenômeno, conhecido como El Niño, influencia o comportamento das chuvas em diferentes partes do planeta e pode aumentar o risco de eventos climáticos extremos em Santa Catarina.
Embora ocorra naturalmente há milhares de anos, o El Niño desperta atenção especial quando atinge maior intensidade. É justamente esse o cenário monitorado pelos meteorologistas em 2026.
Os principais modelos climáticos internacionais indicam que o episódio atual deve evoluir para uma condição de forte a muito forte intensidade ao longo da primavera e do verão, período em que Santa Catarina historicamente registra os maiores impactos.
Mas, afinal…
…como um fenômeno que nasce no Pacífico consegue influenciar diretamente a vida de quem mora em cidades como Blumenau, Florianópolis, Chapecó ou Criciúma?
A resposta está em uma complexa conexão entre oceano e atmosfera, capaz de reorganizar o comportamento do clima em praticamente todo o planeta.
Como nasce o El Niño
Embora o processo aconteça em um único oceano, seus efeitos ultrapassam continentes e alcançam regiões muito distantes, como o Sul do Brasil.
O El Niño é um fenômeno climático de escala global caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, especialmente na região centro-leste, próxima à costa da América do Sul.
Em condições normais, ventos constantes conhecidos como ventos alísios empurram as águas mais quentes em direção à Oceania.
Durante um evento de El Niño, esses ventos enfraquecem, permitindo que a água quente permaneça e se espalhe pelo Pacífico Oriental.
Essa mudança aparentemente simples altera toda a circulação da atmosfera.
Segundo a meteorologista da Epagri/Ciram, Gilsânia de Souza Cruz, o fenômeno ocorre por causa de uma alteração na interação entre oceano e atmosfera, conhecida pelos cientistas como acoplamento oceano-atmosfera.
“O El Niño é resultado do enfraquecimento dos ventos alísios somado ao acúmulo de água quente no Pacífico Oriental. Essa alteração modifica a circulação atmosférica e influencia o clima em diversas regiões do planeta”, explica.
Essa reorganização provoca um efeito conhecido como teleconexão atmosférica. Na prática, significa que alterações ocorridas no Pacífico modificam o comportamento dos ventos em diferentes continentes.
No Sul do Brasil, um dos principais reflexos é o fortalecimento do chamado Jato de Baixos Níveis, popularmente conhecido como “rios voadores”.
Essas correntes transportam grandes volumes de umidade da Amazônia em direção ao Sul do país.
“O transporte de umidade torna-se mais intenso, favorecendo períodos prolongados de chuva, temporais e tempestades”, resume a meteorologista.
Embora o fenômeno seja cíclico, normalmente ocorrendo entre dois e sete anos, nenhum episódio é igual ao outro.
“Cada evento possui sua própria assinatura. Mesmo quando dois episódios apresentam intensidade semelhante, os impactos podem ser bastante diferentes porque outros sistemas atmosféricos também influenciam o clima”, destaca Gilsânia.
Mas, compreender como o fenômeno se forma é apenas parte da história.
A pergunta que realmente importa para os catarinenses é outra: por que Santa Catarina aparece, ano após ano, entre os estados mais afetados pelos eventos extremos associados ao El Niño?
Por que Santa Catarina está entre os estados mais vulneráveis
Para milhares de catarinenses, o El Niño é mais do que um fenômeno estudado por meteorologistas. O nome remete à memória de famílias que já viram rios transbordarem, comunidades ficarem isoladas e cidades inteiras mobilizadas para enfrentar enchentes e deslizamentos.
Se para algumas regiões do Brasil o El Niño representa seca e redução das chuvas, em Santa Catarina ele costuma produzir exatamente o efeito contrário.
O estado está localizado em uma das áreas do continente onde o fenômeno potencializa a formação de frentes frias, sistemas de baixa pressão e tempestades, aumentando significativamente os volumes de chuva.
Segundo a Epagri/Ciram, esse comportamento se intensifica principalmente durante a primavera, estação que já apresenta elevada frequência de temporais e pode se estender pelo verão e início de 2027.
Para o coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi, Santa Catarina aparece, ao lado do Rio Grande do Sul, entre os estados brasileiros historicamente mais afetados pelos episódios de El Niño.
“Santa Catarina é um dos estados mais expostos às chuvas intensas durante os anos de El Niño. Estatisticamente, apenas o Rio Grande do Sul apresenta números mais elevados. A região centro-leste catarinense é a que mais preocupa devido à combinação entre relevo acidentado, alta concentração populacional e histórico de desastres”, afirma.
Essa vulnerabilidade não é resultado apenas da intensidade das chuvas. O pesquisador em História Ambiental da Universidade Regional de Blumenau (FURB), Martin Stabel Garrote, explica que os desastres registrados em Santa Catarina são consequência da interação entre os fenômenos naturais e a forma como o território foi ocupado ao longo da história.
Segundo ele, a ocupação de margens de rios, planícies de inundação e encostas aumentou significativamente a exposição da população aos eventos extremos.
“As grandes enchentes de 1983, 1984, 2008 e 2023 demonstram que o problema não está apenas na intensidade das chuvas, mas também na vulnerabilidade construída historicamente pelas escolhas de ocupação do território”, analisa.
Essa combinação faz com que diferentes regiões catarinenses apresentem riscos específicos.
O Vale do Itajaí permanece como a área mais suscetível às grandes enchentes graduais devido à concentração das águas na bacia do Rio Itajaí-Açu.
Já a Grande Florianópolis e o Litoral Norte convivem com maior risco de deslizamentos de terra e alagamentos urbanos, resultado da ocupação de encostas e da dificuldade de escoamento das águas durante períodos de maré elevada.
No Oeste catarinense predominam enxurradas rápidas, vendavais e granizo, enquanto o Sul do estado enfrenta maior risco de inundações nas bacias dos rios Tubarão e Araranguá.
Apesar desse histórico, especialistas fazem um alerta importante: o El Niño não significa que todas as regiões serão atingidas da mesma maneira.
Os impactos dependem da distribuição das chuvas, das características do relevo e das condições locais de vulnerabilidade.
Por isso, embora os modelos indiquem uma tendência de aumento das precipitações ao longo dos próximos meses, prever exatamente onde ocorrerão os eventos extremos ainda não é possível.
Monitoramento reduz riscos
É justamente por essa razão que o monitoramento permanente realizado pelos órgãos meteorológicos e de proteção civil torna-se uma das principais ferramentas para reduzir riscos e salvar vidas.
ALESC EXPLICA
É um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica a circulação da atmosfera e influencia o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta.
Durante episódios de El Niño, o transporte de umidade da Amazônia para o Sul do Brasil tende a se intensificar. Isso favorece períodos prolongados de chuva, temporais e tempestades, especialmente durante a primavera e o verão.
É o nome popular dado às correntes atmosféricas que transportam grandes volumes de vapor d’água da Amazônia para outras regiões da América do Sul. Em anos de El Niño, esse fluxo costuma se intensificar.
Além do aumento das chuvas provocado pelo fenômeno, fatores como relevo, ocupação de encostas, áreas sujeitas a inundações e características das bacias hidrográficas aumentam a exposição do estado a enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos.