Antes de o vinho chegar à taça, existe uma história que começa no parreiral. No Sul de Santa Catarina, ela foi construída ao longo de quase 150 anos pelas mãos de famílias que trouxeram da Itália o cultivo da videira e o hábito de transformar uvas em vinho.
Entre as variedades que encontraram no território condições para prosperar, uma ganhou identidade própria: a Goethe.
Introduzida ainda no período da colonização, a variedade adaptou-se ao solo, ao clima e ao relevo dos Vales do Sul catarinense e foi aperfeiçoada ao longo das gerações. Essa relação entre variedade, território e saber fazer resultou, em 2011, na primeira Indicação Geográfica de Santa Catarina, na modalidade Indicação de Procedência.
Fonte: Epagri/ReproduçãoEm 2025, a região conquistou a Denominação de Origem, reconhecimento que atesta a relação entre as características dos vinhos e as condições naturais e humanas do território.
Entre os personagens dessa trajetória está o produtor Genésio Mazon. No início dos anos 1980, ele trouxe do Chile mudas de Cabernet Sauvignon e Merlot, em uma iniciativa para diversificar a produção regional. As primeiras experiências não tiveram o resultado esperado, mas ajudaram a abrir caminho para uma nova fase da vitivinicultura.
Hoje, a Vinícola Mazon é administrada por Giselda Mazon e pela filha, Patrícia Amazonon Freitas. A Goethe permanece como principal expressão da identidade da propriedade. Presidente da Associação dos Produtores da Uva e do Vinho Goethe (ProGoethe), Patrícia acompanha o trabalho de valorização do cultivo, que, segundo ela, representa um patrimônio histórico e cultural construído pelas famílias descendentes dos imigrantes italianos.
Patrícia Mazon, administradora da Vinícola Mazon.
Foto: Daniel Conzi / Agência Alesc
Resultado do cruzamento entre a Moscato de Hamburgo e a híbrida Carter, a Goethe apresenta predominância genética de uvas viníferas e origina vinhos leves, aromáticos e de identidade marcante.
Uma tradição que voltou a florescer
A força da Goethe hoje contrasta com períodos de dificuldade. A partir das décadas de 1950 e 1960, a expansão da mineração de carvão mudou a dinâmica econômica do Sul catarinense. Muitas famílias abandonaram os parreirais e a produção perdeu espaço.
A cultura da videira, porém, permaneceu na memória da comunidade. A retomada começou quando produtores e pesquisadores perceberam que era possível recuperar uma vocação histórica. “Durante muitos anos, a nossa tradição ficou adormecida. Diferentemente da Serra Gaúcha, nós tivemos uma ruptura nesse processo.”
A família de Patrícia também buscou novos caminhos. Seu pai investiu durante mais de três décadas em variedades francesas, como Merlot e Cabernet Franc, com mudas trazidas do Chile e da França, mas o projeto não avançou. “Ele tentou produzir durante 34 anos e acabou desistindo.”
A experiência reforçou a necessidade de diversificar a produção agrícola local, historicamente dependente da fumicultura. “Havia a preocupação de fortalecer a fruticultura para combater a monocultura do fumo, que não é sustentável para pequenas propriedades como a nossa.”
Foi nesse contexto que pesquisadores da Epagri voltaram a investigar o potencial da Goethe. O conhecimento técnico, aliado ao interesse dos produtores, ajudou a recolocar a variedade no centro da vitivinicultura regional.
“Os primeiros a investirem foram os próprios pesquisadores da Epagri, que tinham acesso às informações. Depois vieram produtores como Dilor Freitas, que também tinha conhecimento e capital para investir. Foi aí que essa vocação voltou a florescer.”
Criada em 2005, a ProGoethe passou a reunir produtores, vinícolas familiares, artesanais e profissionais ligados à assistência técnica. Hoje, oito vinícolas familiares integram a associação. “Somos oito vinícolas familiares que não conseguem investir um capital elevado na gestão da associação. Por isso, todos acabam fazendo um pouco de tudo.”
Para Patrícia, a força da Goethe está na ligação com o território. “Os Vales da Uva Goethe representam uma tradição de 150 anos.”
O reconhecimento por meio da Indicação Geográfica e, posteriormente, da Denominação de Origem, ajudou a devolver visibilidade à região.
“Enquanto outras regiões evoluíam, nós ficávamos apagados. A Indicação Geográfica e, depois, a Denominação de Origem nos colocaram novamente no mapa da vitivinicultura.”
Uma uva moldada pelo território
O resgate da Goethe também passou pela pesquisa. Para o enólogo da Epagri na Estação Experimental de Urussanga, Stevan Grützmann Arcari, valorizar a relação entre a variedade e o território foi fundamental para evitar o desaparecimento de um produto de forte ligação histórica e cultural.
“Aquele momento foi decisivo. O vinho Goethe estava muito próximo de desaparecer. Era um mercado mais exigente, com muita concorrência, e o produto vinha perdendo notoriedade.”
Estudos sobre a região, a planta e as características do vinho ajudaram a comprovar essa identidade.
Desenvolvida nos Estados Unidos a partir do cruzamento entre a Moscato de Hamburgo e a Carter, a Goethe chegou ao Sul catarinense com outras culturas trazidas pelos imigrantes italianos.
Entre as variedades testadas, foi a que apresentou uma adaptação especial ao território.
“Ela foi a primeira uva capaz de produzir um vinho cujo sabor lembrava aquele consumido pelos colonizadores no norte da Itália. Costumamos dizer que foi paixão ao primeiro gole.”
Embora cultivada em outros locais, foi nos Vales da Uva Goethe que a variedade desenvolveu características particulares. “A Denominação de Origem comprova que esse é um produto típico do território, resultado da interação entre o clima, o solo, a geografia e a cultura das pessoas que vivem aqui.”
Características que revelam uma identidade
A Goethe exige atenção dos produtores, principalmente durante a maturação, quando fica mais sensível às condições climáticas. “É uma uva que exige muito cuidado no cultivo.”
A variedade origina vinhos de coloração entre o amarelo-claro e o dourado, com aromas frutados e florais e acidez marcante. Permite a elaboração de vinhos leves e refrescantes, além de frisantes e espumantes.
Variações de solo, relevo e microclima também produzem nuances próprias em cada safra e propriedade. “Cada safra, cada vinhedo, cada produtor e até cada tanque pode apresentar nuances diferentes.”
Para Arcari, essa combinação define a singularidade da variedade. “O vinho Goethe é único, original, típico e raro.”
Ficha Técnica
- Território Vales do Sul catarinense. Perfeita adaptação ao solo, clima e relevo locais.
- Genética Cruzamento entre a Moscato de Hamburgo e a híbrida Carter, com predominância genética de uvas viníferas.
- Cultivo Exige cuidado na maturação. Apelidada de “uva do quilômetro zero” pela rápida oxidação, necessitando processamento rápido.
- Perfil do Vinho Coloração amarelo-claro a dourado. Aromas frutados e florais. Origina vinhos leves, refrescantes e espumantes.
Uma história que continua entre gerações
A história da Vinícola Trevisol se confunde com a trajetória da família que mantém viva a tradição da Goethe há mais de um século. As raízes remontam a 1881, quando os bisavós de Gilmar Trevisol chegaram à comunidade de Rio Caeté, em Urussanga, trazendo o cultivo da videira e o hábito de produzir vinho.
Família Trevisol, administradores da Vinícola Trevisol.
Foto: Daniel Conzi / Agência Alesc
Hoje, a propriedade está nas mãos da quarta geração e já conta com a participação da quinta. Para Gilmar, acompanhar os filhos na rotina da vinícola é uma forma de garantir a continuidade da história familiar.
“É uma realização ver eles participando e demonstrando interesse em seguir esse caminho.”
Gilmar dedica-se à produção dos vinhos, enquanto a esposa, Edia Machado dos Santos Trevisol, concilia a profissão de professora com o enoturismo. Nos fins de semana, recebe visitantes e conduz experiências gastronômicas que resgatam sabores e costumes da cultura italiana.
A ideia de abrir a propriedade ao público ganhou força em 2020, durante a pandemia, quando Edia passou a permanecer mais tempo no local por causa do ensino híbrido. A partir de 2021, após consultorias e capacitações, começaram as degustações harmonizadas com queijos, salames e outros produtos da agricultura familiar. Depois vieram piqueniques, cafés da roça, almoços típicos e a recepção de grupos maiores.
Na produção, a própria característica da Goethe impõe desafios. Como a uva oxida rapidamente, precisa ser colhida, processada e encaminhada à vinificação no mesmo dia. Daí surgiu entre os produtores o apelido de “uva do quilômetro zero”, em referência à necessidade de manter o processamento próximo aos vinhedos.
A relação da família com o vinho vai além da produção. Para Gilmar, a bebida carrega lembranças da infância e dos momentos vividos ao lado do avô. “O vinho tem sabor de infância.”
Para Edia, a transformação da propriedade representa uma nova etapa da história familiar.
O enoturismo abriu novos caminhos para a família. O filho do casal, Miguel, já participa das atividades e projeta o futuro da vinícola, com o desejo de ampliar o alcance dos vinhos Trevisol e levar a história da família para além da região. Para Gilmar e Edia, ver os filhos envolvidos é a confirmação de que a tradição iniciada pelos bisavós continua viva.
Mais do que produzir vinho, a família Trevisol preserva uma herança construída com trabalho, memória e pertencimento. Uma história que começou com os imigrantes italianos, encontrou na uva Goethe uma identidade própria e segue sendo escrita, geração após geração.
Repórter: Tatiani Magalhães / Agência ALESC
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