
Parecia apenas mais um seminário. Cadeiras alinhadas, autoridades presentes, profissionais atentos. Até que o inesperado rompe a normalidade: um homem se levanta, veste uma máscara e avança com uma arma branca. O som de explosões ecoa. Portas são forçadas. Gritos, correria. O pânico toma conta. Ninguém sabe ao certo para onde ir ou como reagir. Segundos se arrastam como minutos intermináveis, até algumas pessoas conterem a ameaça.
A cena, apesar de angustiante, não era real. Mas poderia ser.
A simulação de uma invasão a uma escola foi realizada durante o seminário macrorregional sobre segurança nas escolas, em São Bento do Sul, nesta sexta-feira (17), como parte de uma mobilização que percorreu diferentes regiões de Santa Catarina. A iniciativa do Comitê Integrado para Cidadania e Paz nas Escolas (Integra), liderado pela Alesc, busca preparar quem está na linha de frente: professores, gestores, forças de segurança e toda a rede de proteção.
Mais do que informar, o objetivo é provocar, tirar da zona de conforto, mostrar que a prevenção exige preparo, coordenação e, principalmente, consciência de risco.
O evento, realizado no auditório da Univille, marcou o encerramento do ciclo de encontros e reuniu representantes de instituições públicas, privadas e da comunidade escolar, com a proposta de fortalecer a proteção nas escolas por meio da integração entre diferentes setores.
Ao longo dos encontros, que já passaram por São Miguel do Oeste, Rio do Sul, Campos Novos, Araranguá e, agora, São Bento do Sul, um ponto ficou evidente: a segurança escolar não pode ser tratada de forma isolada.
A diretora adjunta de Comunicação da Alesc, Patrícia Amorim, reforça essa visão ao destacar a dimensão coletiva da iniciativa. “A Alesc, em parceria com outras 20 instituições, tem ido às regiões de Santa Catarina para capacitar educadores e profissionais da segurança, levando subsídios sobre como agir em situações de combate ao bullying e à violência escolar. O Comitê Integra nasce de uma dor, de um período muito impactante para os catarinenses após as tragédias de Saudades e Blumenau. E a resposta precisava ser coletiva.”
Ela enfatiza que o Comitê reúne diferentes forças, Tribunal de Justiça, universidades, Defesa Civil, órgãos de segurança e educação e busca planejar ações integradas. “O que queremos é levar uma solução completa para um problema que não pode ser resolvido de forma pontual. Além da segurança, buscamos fomentar uma cultura de paz.”
Patrícia também traz a dimensão do tema ao compartilhar um depoimento pessoal. “Como mãe, saber que existe um comitê pensando na segurança dos nossos filhos traz alívio. Não é uma ação pontual. É contínua. São estratégias pensadas para evitar que a violência aconteça.”
O relato se conecta diretamente com memórias ainda recentes e dolorosas. “Não podemos ser indiferentes ao ouvir o relato de um pai que afirma que o silêncio ecoa em uma casa após uma tragédia. Isso marca. Não é só estatística. É humano. É real.”
Na prática, uma das principais ferramentas apresentadas no seminário é o Plano de Contingência Multirriscos (PlanCon Edu-MR/SC), considerado inovador no país. A gerente de Educação e Pesquisa da Defesa Civil, Regina Panceri, destaca o alcance da iniciativa. “Estamos falando de mais de 6 mil escolas e cerca de 2 milhões de estudantes. É um impacto enorme. E, mais do que proteger, estamos formando uma geração que saberá como agir diante de situações de risco.”
Segundo ela, o plano vai além da reação: promove uma mudança cultural. “Estamos implantando a educação para redução de riscos e desastres. Isso transforma comportamento e torna o estado mais preparado.”
A estratégia envolve a criação de comitês regionais, municipais e escolares, além da elaboração de planos específicos em cada unidade de ensino. “É um processo participativo, que envolve desde a escola até órgãos como polícia, bombeiros, saúde e Ministério Público.”
No campo da segurança, o coordenador de Polícia Comunitária, major PM Leonardo Baccin, chama atenção para um ponto sensível: a falta de cultura preventiva. “O brasileiro ainda não tem o hábito de se preparar para situações críticas. E é isso que estamos tentando mudar.”
Durante os seminários, foram apresentadas orientações práticas que podem salvar vidas. “Trabalhamos com o protocolo ‘fugir, esconder, lutar’. São atitudes simples, mas que fazem diferença em situações extremas.”
Já na rede de ensino, os impactos começam a aparecer. O supervisor regional de Educação, Arnaldo Medeiros, relata mudanças concretas. “Hoje nossas escolas estão mais preparadas. Professores passaram por capacitação e sabem como agir diante de situações fora do normal.”
Ele lembra que a demanda surgiu após episódios de violência em 2023. “Instalamos botões de pânico, reforçamos o controle de acesso, ampliamos a presença de segurança. Foi uma resposta necessária.”
Segundo Medeiros, a percepção dos estudantes também mudou. “Eles se sentem mais seguros. E isso impacta diretamente no ambiente escolar.”
Dentro das unidades, as transformações são visíveis. A diretora Danielli Godeaki Grien descreve a nova realidade. “Hoje temos reconhecimento facial, cercas mais altas, controle rigoroso de entrada. Tudo foi repensado.”
Mesmo assim, ela faz um alerta importante. “A sensação de segurança aumentou, mas sabemos que o risco nunca é zero. Por isso, seguimos atentos, ajustando e melhorando. A participação coletiva é essencial. Famílias, professores, gestão e poder público precisam caminhar juntos. Toda ação que soma ajuda a tornar o ambiente mais seguro.”
A deputada Paulinha (Podemos), coordenadora do Comitê Integra, reforçou, por meio de vídeo, o propósito da mobilização. “Quando a violência atinge a escola, que deveria ser o espaço mais protegido da sociedade, é sinal de que algo muito sério está acontecendo. E nós precisamos agir.”
O ciclo de seminários se encerra, mas o alerta permanece. A pergunta “estamos preparados?” ecoa com uma resposta clara: não se trata apenas de reagir a tragédias, mas de evitá-las.
Prêmio Paz nas Escolas
O Comitê Integra segue com ações voltadas à segurança nas escolas. Após o ciclo de seminários, foi lançado o projeto Paz nas Escolas, que visa estimular a participação dos estudantes no debate sobre o tema.
Alunos do ensino fundamental e médio, das redes pública e privada do estado, podem concorrer com a produção de vídeos que apresentem ações, reflexões e ideias de enfrentamento à violência, ao bullying e a outras formas de agressão no ambiente escolar.
As inscrições são gratuitas e devem ser realizadas exclusivamente por meio do endereço eletrônico paznasescolas@alesc.sc.gov.br até 29 de maio.
As produções vencedoras receberão premiação e serão divulgadas nos canais institucionais do Parlamento catarinense.
A diretora adjunta de Comunicação da Alesc chama atenção para uma frente estratégica do projeto: ouvir quem vive a escola todos os dias. “Um edital aberto pela Alesc convida estudantes de todo o estado a produzirem vídeos sobre combate ao bullying, respeito e cultura de paz. Mais do que capacitar, queremos ouvir quem está na base: estudantes e professores.”

