Comunicação

Seminário Regional fortalece debate sobre inclusão e direitos das pessoas com autismo no Oeste


Evento realizado em Maravilha reuniu especialistas, familiares, educadores e pessoas autistas para debater inclusão, ciência, direitos e políticas públicas voltadas ao Transtorno do Espectro Autista.

Simone Sartori
12/06/2026 - 16h00min

Seminário Regional fortalece debate sobre inclusão e direitos das pessoas com autismo no Oeste

Foto: Jeferson Baldo/Agência Alesc

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Inclusão e conscientização

Uma história de criatividade, sensibilidade e inclusão marcou a abertura do 1º Seminário Regional de Autismo do Oeste de Santa Catarina, realizado em Maravilha.

Aos 15 anos, Felipe Antônio, de Pinhalzinho, encontrou nos desenhos e nas histórias em quadrinhos uma forma de expressão, comunicação e conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Portador de autismo, ele transformou sua vivência em arte e, ao lado da irmã Sofia Helena, de apenas 11 anos, deu vida a uma publicação que busca aproximar a sociedade da realidade das pessoas autistas.

A revista em quadrinhos, produzida em parceria com os ilustradores Chris Chaves e Fábio Lopes, apresenta histórias inspiradas no cotidiano da família e tem como principal objetivo promover informação, empatia e inclusão.

Para Felipe, desenhar representa “paz, união e inclusão”.

Ele conta que a inspiração surgiu após conhecer uma revista em quadrinhos e perceber que poderia criar histórias para ajudar as pessoas a compreenderem melhor o autismo.

Participante do Seminário Regional de Autismo do Oeste de Santa Catarina
Foto: Jeferson Baldo/Agência Alesc
“Essa revista é importante para as pessoas entenderem o que é o autismo. Eu gosto de desenhar de tudo, futebol, personagens, quebra-cabeças. Ver meus desenhos publicados foi emocionante, eu me arrepiei quando vi a revista pronta”, relatou.

A trajetória dos irmãos simboliza o propósito do seminário: ampliar o conhecimento sobre o TEA, combater preconceitos e fortalecer uma sociedade mais acolhedora e preparada para garantir direitos.

Promovido com o objetivo de disseminar informações qualificadas sobre o Transtorno do Espectro Autista, o evento reuniu profissionais da educação, saúde, familiares, lideranças e especialistas para discutir práticas inclusivas, manejo comportamental e políticas públicas voltadas às pessoas autistas.

Conhecimento para transformar realidades

Propositor do seminário, o deputado Mauro De Nadal (MDB) destacou que o principal objetivo da iniciativa é despertar o interesse da sociedade pela causa e oferecer oportunidades de capacitação para profissionais que atuam diretamente com pessoas autistas.

Segundo ele, o conhecimento é uma ferramenta fundamental para promover inclusão e qualidade de vida.


“O impacto que buscamos é justamente despertar o interesse das pessoas pela causa autista e oferecer aos educadores, profissionais da saúde e gestores públicos a oportunidade de ampliar seus conhecimentos. Quando conhecemos melhor a realidade das pessoas autistas, conseguimos construir ambientes mais inclusivos, mais dignos e mais preparados para acolher as famílias.”
Mauro De Nadal
Deputado
Mauro De Nadal

O parlamentar ressaltou ainda que levar seminários para o interior catarinense faz parte da missão da Escola do Legislativo e da Assembleia Legislativa de Santa Catarina de aproximar conhecimento e cidadania da população.

“Todo esforço que fazemos nessa caminhada tem resultado positivo porque reflete diretamente na qualidade de vida das famílias. O conhecimento gera inclusão e a inclusão gera dignidade.”

Ciência e capacitação em foco

A programação reuniu especialistas reconhecidos nacionalmente na área do autismo e da Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

A psicóloga Adriana Rubio ministrou a palestra “Do Estigma à Estratégia: Manejo de Comportamentos Desafiadores na Escola sob a Ótica da Ciência ABA”, destacando a importância de compreender os comportamentos apresentados por pessoas autistas antes de qualquer julgamento.

Segundo ela, muitas famílias ainda enfrentam preconceitos decorrentes da falta de conhecimento.

“Muitas vezes a sociedade interpreta uma crise como falta de limites ou má educação, quando na verdade estamos falando de um transtorno do neurodesenvolvimento. Esse desconhecimento acaba gerando sofrimento para as famílias e exclusão das crianças dos espaços sociais.”

Para a especialista, a capacitação dos profissionais da educação é uma das principais ferramentas para romper estigmas.

“A escola é uma das portas de entrada para essas crianças. Quando os professores compreendem o autismo e aprendem estratégias adequadas, conseguem acolher melhor os alunos, orientar as famílias e contribuir para o desenvolvimento dessas crianças.”

Adriana também destacou o protagonismo de Santa Catarina na promoção de debates sobre inclusão e autismo.

“Iniciativas como essa deveriam ser levadas para todo o país. A Assembleia Legislativa de Santa Catarina tem sido pioneira ao investir na formação de profissionais e na disseminação de conhecimento sobre o autismo.”

Participante do Seminário Regional de Autismo do Oeste de Santa Catarina
Foto: Jeferson Baldo/Agência Alesc
“Iniciativas como essa deveriam ser levadas para todo o país. A Assembleia Legislativa de Santa Catarina tem sido pioneira ao investir na formação de profissionais e na disseminação de conhecimento sobre o autismo.”

A experiência de quem vive a realidade do autismo

Outro momento marcante do seminário foi a palestra da pedagoga e ativista Andréia  Rigotti, intitulada Meu filho tem Autismo: vinte anos de vida, dez anos de empirismo e dez anos sob a ótica da ciência”.

A apresentação trouxe reflexões sobre a evolução do conhecimento científico relacionado ao TEA e os desafios enfrentados pelas famílias ao longo dos anos.

Para Andréia, a transformação na vida das famílias acontece quando o acolhimento caminha junto com a ciência.

Especialista participa do Seminário Regional de Autismo do Oeste de Santa Catarina
Foto: Jeferson Baldo/Agência Alesc
“Trouxemos a ciência para perto das famílias, oferecendo um tratamento individualizado, baseado em evidências científicas. Quando uma criança recebe a intervenção adequada, ela pode desenvolver habilidades que impactam diretamente sua qualidade de vida e a de toda a família”, destacou.

Mãe de João, diagnosticado com autismo nível 3 de suporte há duas décadas, Andréia também compartilhou sua própria trajetória durante o seminário, relatando os desafios enfrentados em uma época em que pouco se falava sobre o transtorno.

“Trouxe um pouco da busca desesperada de uma mãe há 20 anos, quando praticamente não existia informação sobre autismo. Hoje temos acesso à ciência e a ferramentas que podem mudar a vida das nossas crianças. Meu objetivo é mostrar às famílias que elas não precisam caminhar sozinhas.”

Para ela, iniciativas promovidas pelo parlamento representam mais do que conhecimento: significam pertencimento.

“Ter um filho autista pode ser uma experiência muito solitária. Quando a Assembleia Legislativa vem até as famílias, ela mostra que nossos filhos estão sendo vistos e que o Estado está pensando neles. É como se estivéssemos de mãos dadas com muitas pessoas. Quando uma família recebe apoio, informação e acesso à ciência, ela deixa de apenas sobreviver ao diagnóstico e passa a enxergar possibilidades para o futuro.”

Também integrou a programação a palestra “Comportamentos desafiadores: compreender, prevenir e intervir”, ministrada pelo especialista Rafael Silva.

O olhar das famílias

Entre os participantes estava Adileide Paiva Silva, mãe de João Miguel, de cinco anos, autista. Ela destacou que um dos maiores desafios enfrentados pelas famílias ainda é o acesso a terapias e profissionais capacitados.

Participante do Seminário Regional de Autismo do Oeste de Santa Catarina
Foto: Jeferson Baldo/Agência Alesc
“As maiores necessidades das famílias são apoio, acolhimento e acesso aos serviços. Muitas mães acabam sobrecarregadas porque não encontram suporte adequado. Precisamos de mais profissionais preparados e mais políticas públicas voltadas para nossos filhos”, afirmou.

Adileide também ressaltou a importância da capacitação oferecida durante o seminário.

“É um conhecimento valioso. Por isso fico triste quando profissionais que atuam diretamente com nossas crianças não conseguem participar. Eventos assim fazem diferença porque ajudam as pessoas a compreender melhor o autismo e a oferecer um atendimento mais adequado.”

Apesar das dificuldades, ela reconheceu o esforço de quem trabalha pela causa.

“Quando vemos pessoas comprometidas com o autismo, percebemos que ainda existe esperança. Saber que há quem enxergue nossas famílias e lute pelos nossos direitos nos fortalece.”

“Eu poderia ter sido incluída”

Uma das falas mais emocionantes do seminário foi da autista Roseli Claro, de 55 anos, que compartilhou sua trajetória marcada por exclusão, preconceito e superação.

Diagnosticada ainda na infância, em uma época em que pouco se falava sobre autismo, Roseli ouviu dos médicos que jamais seria alfabetizada.

A previsão, no entanto, não se confirmou. Hoje ela trabalha auxiliando adolescentes e adultos autistas na inserção no mercado de trabalho e se tornou uma voz ativa na defesa da inclusão.

Ao relembrar a infância, contou episódios que ainda carregam marcas profundas. “Disseram à minha mãe que eu jamais seria alfabetizada. Mas ela nunca desistiu de mim.”

Na escola, a falta de compreensão transformava atividades simples em momentos de sofrimento.

Participante do Seminário Regional de Autismo do Oeste de Santa Catarina
Foto: Jeferson Baldo/Agência Alesc
“As outras crianças recebiam estrelinhas e iam para o recreio. Eu ficava sentada olhando pela porta, vendo elas brincarem lá fora, sem entender por que eu não podia ir junto. Eu tentava brincar, mas era ignorada e excluída. Ninguém me ensinava como me aproximar das outras crianças. Eu só queria fazer parte.”

Apesar das barreiras, ela concluiu os estudos e construiu sua independência. Hoje, ao olhar para trás, faz uma reflexão direcionada aos educadores e profissionais presentes no seminário.

“Agora eu pergunto: onde falhamos? Como estamos recebendo as crianças autistas nas salas de aula? Vocês estão me ouvindo hoje porque alguém acreditou em mim.”

Ao encerrar seu relato, deixou uma mensagem que emocionou o público e sintetizou o propósito do seminário.

“Sou mulher, sou autista e sou muito feliz. Tenho orgulho de quem sou, mas não deveria ter passado por tudo o que passei. Eu poderia ter sido incluída.”

E concluiu com um apelo que ecoou entre os participantes.

“Espero que vocês passem a olhar para a pessoa autista como alguém de potencial ilimitado e se comprometam a ajudá-la a desenvolver tudo o que ela pode ser e aprender.”


ALESC EXPLICA

O que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA)?

É uma condição do neurodesenvolvimento que influencia a comunicação, a interação social e o comportamento, podendo se manifestar de diferentes formas e níveis de suporte.

O que é ABA?

A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é uma abordagem baseada em evidências científicas utilizada para desenvolver habilidades e reduzir comportamentos que dificultam a aprendizagem e a autonomia.

O que é a CIPTEA?

É a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, criada para facilitar a identificação e garantir atendimento prioritário às pessoas autistas.

O que significa nível de suporte no autismo?

É a classificação utilizada para indicar o grau de apoio necessário para que a pessoa autista desenvolva suas atividades cotidianas.

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