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Setembro Amarelo reforça importância da escuta e da prevenção diante do avanço dos casos de suicídio


Dados mostram aumento dos casos em Santa Catarina; especialista destaca sinais de alerta, fortalecimento das redes de apoio e busca por ajuda profissional.

Valquíria Guimarães
08/09/2026 - 09h41min

Setembro Amarelo reforça importância da escuta e da prevenção diante do avanço dos casos de suicídio

Foto: Imagem gerada por IA.

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O Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio, chama a atenção para um problema de saúde pública que continua exigindo mobilização de toda a sociedade.

Saúde mental em números

No Brasil, foram registrados 15.507 suicídios em 2021, segundo o Ministério da Saúde. Naquele ano, o suicídio representou a 27ª principal causa de morte no país e esteve entre as principais causas de mortalidade de adolescentes e adultos jovens.

Ainda, no cenário nacional, a prevalência de ansiedade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é de cerca de 9,3% a 10% da população, média de 18 milhões de pessoas, a maior taxa do mundo para a doença.

Cerca de 12,7% da população brasileira convive com a depressão, o país que apresenta a maior prevalência de depressão na América Latina.

Em Santa Catarina, o cenário também exige atenção. Dados da Secretaria de Estado da Saúde mostram que o número de suicídios passou de 769, em 2020, para 962, em 2023, um aumento de 25%. Somente em 2023, 76% das vítimas eram homens.

Entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos, foram registrados 41 óbitos naquele ano. Ainda, dados do Ministério Público apontam que, em Santa Catarina, foram registradas mais de 8.000 tentativas de suicídio entre crianças e adolescentes, e, em anos anteriores, como 2024, as notificações estaduais de tentativas totalizaram cerca de 19 mil casos.

Os números ajudam a dimensionar o problema, mas, para o psicólogo Mateus Rodrigues, a prevenção começa muito antes de uma situação de emergência.

Ela passa pela capacidade de perceber mudanças de comportamento, estabelecer diálogo e oferecer acolhimento a quem está enfrentando sofrimento emocional.

Saúde mental em números

O cenário no país e no estado ajuda a dimensionar o problema e reforça a urgência das ações de prevenção.

Brasil 15.507 Suicídios registrados em 2021 27ª principal causa de morte no país.
Brasil 18 Mi De pessoas convivem com ansiedade Corresponde a ~10% da população, a maior taxa do mundo.
Brasil 12,7% Da população apresenta depressão Maior prevalência da América Latina.
Santa Catarina +25% Aumento de suicídios De 769 (em 2020) para 962 (em 2023).
Santa Catarina 19 mil Tentativas notificadas Apenas em 2024, alertando para a necessidade de acolhimento.
Santa Catarina 76% Das vítimas eram homens Dados referentes ao ano de 2023 no estado.

Mudanças de comportamento merecem atenção

Segundo Rodrigues, os sinais de alerta podem aparecer de diferentes formas e nem sempre são expressos diretamente.

O isolamento repentino, o afastamento de familiares e amigos, a perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer e mudanças significativas na rotina são comportamentos que devem ser observados.

“Quando ocorre um isolamento ou um afastamento que foi inesperado, é muito importante que a gente procure saber o que aconteceu, o porquê daquele afastamento”, explica.

O psicólogo também chama atenção para o aumento do uso de álcool e outras substâncias, comportamentos de risco e outras atitudes que representem uma mudança significativa em relação ao padrão habitual da pessoa.

Para Rodrigues, observar essas alterações é importante porque, muitas vezes, a pessoa que está sofrendo não consegue identificar ou verbalizar claramente o que está acontecendo.

Falar sobre a morte exige atenção e acolhimento

Em situações de sofrimento mais intenso, os sinais podem se tornar mais evidentes, com crises de ansiedade, episódios de choro, desesperança e manifestações relacionadas à morte ou à falta de sentido na vida.

Essas falas, segundo o psicólogo, não devem ser ignoradas ou tratadas como exagero. O sofrimento emocional que pode levar a pensamentos suicidas é complexo e não necessariamente está relacionado a um único acontecimento.

Perdas, conflitos familiares, dificuldades pessoais, problemas financeiros, mudanças importantes ou outras situações adversas podem contribuir para o agravamento do sofrimento. A reação, porém, varia de pessoa para pessoa.

Por isso, Rodrigues destaca a importância de considerar também fatores como os vínculos sociais, as condições de vida e a existência de uma rede de apoio.

Rede de apoio pode fazer diferença

A prevenção, segundo o psicólogo, não pode ser colocada exclusivamente sobre os ombros de quem está sofrendo. Família, amigos, escolas, ambientes de trabalho, comunidade e poder público têm papel importante na construção de espaços de escuta e acolhimento.

“Manter diálogo aberto, ter essa possibilidade de com quem conversar, ter pessoas de referência nesses locais é fundamental”, afirma.

Na escola, por exemplo, os estudantes precisam saber a quem recorrer quando enfrentam dificuldades. No ambiente profissional, relações mais humanas e atentas às condições de vida dos trabalhadores também podem contribuir para identificar situações de sofrimento.

Rodrigues chama atenção ainda para os impactos da redução dos vínculos presenciais em uma sociedade cada vez mais conectada por celulares, computadores e redes sociais.

Para ele, fortalecer relações humanas e desenvolver a capacidade de olhar, ouvir e perceber o outro são atitudes que também fazem parte da prevenção.

Legislativo catarinense transforma prevenção em política pública

Em Santa Catarina, o Setembro Amarelo também representa o resultado de uma atuação legislativa que transformou a valorização da vida e a prevenção ao suicídio em compromisso permanente do Estado.

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) teve papel pioneiro na institucionalização da campanha.

Em 2018, a partir de projeto de iniciativa parlamentar, foi sancionada a Lei 17.558, que instituiu o Setembro Amarelo no Estado, o Dia Estadual de Prevenção ao Suicídio, celebrado em 10 de setembro, e a Caminhada Anual pela Vida. A legislação posteriormente foi consolidada pela Lei nº 18.531/2022.

A iniciativa estabeleceu objetivos que vão além da conscientização simbólica. Entre eles estão a realização de palestras e seminários, a capacitação de profissionais de saúde para identificar situações de risco, a ampliação da divulgação de informações, a criação de canais de atendimento, o monitoramento de casos e o fortalecimento do debate sobre o suicídio e suas causas.

O protagonismo do Parlamento também se estende à discussão mais ampla sobre saúde mental. Santa Catarina possui, desde 2017, legislação que institui a Semana Estadual da Saúde Mental, com o objetivo de estimular o debate, articular sociedade civil e poder público e garantir atendimento humanizado às pessoas em sofrimento mental. Em 2025, uma nova lei ampliou os objetivos da Semana da Saúde Mental.

A atuação da Alesc não se limita à produção legislativa. O Parlamento também promove ações de conscientização voltadas ao próprio ambiente institucional.

Em 2025, por exemplo, a Assembleia desenvolveu a campanha “O que me faz bem”, direcionada aos servidores, com foco na promoção da saúde mental e na valorização da vida.

Esse conjunto de iniciativas mostra que o enfrentamento do suicídio exige uma atuação articulada entre legislação, políticas públicas, serviços de saúde e participação da sociedade.

É justamente nesse ponto que o papel do Legislativo ganha relevância: transformar uma pauta que durante muito tempo foi tratada como tabu em uma agenda permanente de prevenção, informação e cuidado.

Santa Catarina mantém atenção sobre o problema

A dimensão do desafio também aparece nos atendimentos da rede pública. Em 2024, até o fim de agosto, o SAMU/SC havia registrado 2.645 chamadas relacionadas a tentativas de suicídio, com envio de equipes em 1.840 ocorrências.

Entre os atendimentos realizados por unidades de suporte avançado, 276 envolviam pessoas de 20 a 39 anos.

A Secretaria de Estado da Saúde mantém o tema entre as prioridades de vigilância e prevenção.

O relatório estadual de 2024 registrou uma taxa de mortalidade por suicídio de 14,43 por 100 mil habitantes, próxima da meta estabelecida para o período.

Os dados reforçam que a prevenção precisa ser contínua e não ficar restrita ao mês de setembro.

Procurar ajuda antes do limite

Para Mateus Rodrigues, não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável para buscar atendimento profissional.

Mudanças persistentes de comportamento, perda de motivação e prazer, isolamento, conflitos recorrentes, uso abusivo de substâncias e episódios de automutilação são situações que merecem atenção e podem indicar a necessidade de avaliação profissional.

“Se eu não vejo mais sentido nas coisas que faço, talvez não faça mais sentido eu estar aqui”, alerta.

O acompanhamento pode envolver psicoterapia e, quando indicado, avaliação psiquiátrica. A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) também oferece serviços para pessoas em sofrimento mental, por meio de estruturas como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e as Unidades Básicas de Saúde.

Em situações de emergência, a orientação é procurar imediatamente um serviço de urgência ou acionar o atendimento de emergência.

Acolher é mais importante do que minimizar

Um dos pontos destacados pelo psicólogo é a forma como familiares e amigos devem reagir quando percebem que alguém está sofrendo.

Ouvir sem julgamentos, demonstrar preocupação e oferecer companhia são atitudes importantes. Frases que minimizam a dor, como “isso vai passar” ou “deixa disso”, podem fazer com que a pessoa se sinta ainda mais incompreendida.

Também não contribui para a prevenção de culpabilizar quem sofre ou atribuir a situação à falta de esforço pessoal.

“O primeiro de tudo é trazer acolhimento, trazer escuta”, afirma Rodrigues.

A conversa pode começar de maneira simples: demonstrando que a mudança foi percebida e deixando claro que existe disponibilidade para ouvir.

Quando o sofrimento é intenso, persistente ou envolve risco imediato, entretanto, é fundamental buscar ajuda profissional e os serviços de saúde.

Saúde mental é responsabilidade coletiva

O Setembro Amarelo amplia, durante o mês, uma discussão que precisa permanecer durante todo o ano. A saúde mental não deve ser preocupação apenas de quem recebeu um diagnóstico ou está em tratamento.

Perdas, conflitos, mudanças e situações adversas podem afetar qualquer pessoa. Por isso, além do acesso aos serviços de saúde, o fortalecimento dos vínculos sociais, a prática de atividades físicas, o esporte e manifestações artísticas também podem contribuir para o bem-estar emocional, especialmente quando associados a uma rede de apoio e, quando necessário, ao acompanhamento profissional.

Para Rodrigues, prestar atenção ao outro é uma responsabilidade que começa nas relações mais próximas.

“É muito fundamental todo mundo prestar atenção na saúde mental porque pode acontecer com qualquer pessoa”, resume.

Mais do que uma campanha anual, o Setembro Amarelo representa um convite à sociedade para falar sobre saúde mental, reconhecer sinais de sofrimento, fortalecer vínculos e compreender que pedir ajuda é um ato de cuidado.

A prevenção começa pela atenção, pela escuta e pelo acolhimento.

Escutar é estar presente

“Escutar é estar presente” é o mote da campanha do Setembro Amarelo 2026, com foco na escuta acolhedora e na valorização da vida. O movimento nacional de prevenção ao suicídio é uma iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).

O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio ocorre em 10 de setembro. O objetivo central é reduzir o estigma social e incentivar o diálogo aberto sobre saúde mental.

Onde Buscar Ajuda

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito, sigiloso e anônimo 24 horas por dia. O contato com o CVV pode ser feito pelo telefone 188.

Ligue 188

A rede pública de saúde (como os postos de saúde e os CAPS) também disponibiliza acompanhamento especializado.

Marcos Legais de Prevenção

Design: Milene Conci / Agência ALESC


ALESC EXPLICA

Quais mudanças de comportamento podem merecer atenção?

A reportagem aponta situações como isolamento repentino, afastamento de familiares e amigos, perda de interesse por atividades, mudanças significativas na rotina, aumento do uso de álcool e outras substâncias e comportamentos de risco.

Como familiares e amigos podem ajudar?

Segundo o psicólogo ouvido pela reportagem, diálogo, escuta sem julgamentos, acolhimento e disponibilidade para estar presente são importantes. Minimizar ou culpabilizar a pessoa pode aumentar a sensação de incompreensão.

Onde procurar atendimento?

A reportagem cita a Rede de Atenção Psicossocial, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), as Unidades Básicas de Saúde e, em situações de emergência, os serviços de urgência. Também informa que o CVV oferece atendimento gratuito, sigiloso e anônimo pelo telefone 188.

O Setembro Amarelo faz parte da legislação catarinense?

Sim. A reportagem informa que a Lei 17.558/2018 instituiu em Santa Catarina o Setembro Amarelo, o Dia Estadual de Prevenção ao Suicídio e a Caminhada Anual pela Vida, posteriormente consolidados pela Lei 18.531/2022.

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