Comunicação

Planalto Serrano recebe debate “Santa Catarina Sem Drogas”


13/06/2011 - 15h52min

Fórum Parlamentar de Prevenção e Combate às Drogas – Audiência pública ‘Santa Catarina sem drogas’ – Local: Câmara Municipal de Lages

Fórum Parlamentar de Prevenção e Combate às Drogas – Audiência pública ‘Santa Catarina sem drogas’ – Local: Câmara Municipal de Lages

Prefeitos, secretários municipais, vereadores, representantes do Ministério Público, do Judiciário e de organizações sociais reuniram-se na tarde de sexta-feira (10), no auditório da Câmara Municipal de Lages, para discutir as estratégias de combate e prevenção às drogas na região do Planalto Serrano. Uma iniciativa do Fórum Permanente de Combate e Prevenção às Drogas, presidida pelo deputado Ismael dos Santos (DEM), o evento faz parte de uma série de audiências que percorrem o estado, com o objetivo de conhecer as realidades regionais, levantando estatísticas de usuários e conhecendo programas de atendimento e as demandas municipais. Ao final, será elaborado um relatório que servirá de base para a elaboração de políticas públicas para o setor.
Representando o Ministério Público Estadual, o promotor de Justiça Carlos Henrique Fernandes afirmou que Lages, antes considerado um município tranquilo, já faz parte da rota internacional do tráfico e padece de problemas típicos dos grandes centros brasileiros. Para se ter uma ideia da dimensão do problema, disse Fernandes, atualmente, 44% do número de internos do presídio de Lages é formado por pessoas envolvidas no comércio de entorpecentes. “Imagine o estrago que todos esses traficantes podem causar em um município como Lages”, disse.
A experiência à frente do MP, prosseguiu Fernandes, mostrou ainda que o tráfico de drogas traz consigo toda uma gama de outros crimes, como prostituição, homicídio, roubo, furto, além de malefícios como desemprego, violência doméstica e esquizofrenia. “Não podemos fechar os olhos para essa realidade”, conclamou. Ele afirmou ainda que, ainda que a repressão e o tratamento a dependentes químicos sejam importantes, a prevenção é o método mais eficaz no combate à disseminação das drogas. “Precisamos investir mais nos órgãos públicos de controle, fortalecendo o controle das fronteiras e setores de inteligência policial”, disse.
Registros da Polícia Civil de Lages mostram que, apenas nos cinco primeiros meses deste ano, foram apreendidos no município 10 quilos de drogas, entre crack e maconha, e incinerados mais 500, recolhidos nos últimos anos. “Não é fácil combater o tráfico, falta articulação entre os órgãos de repressão”, afirmou a delegada regional Luciana Rodermel, que sugeriu a criação de uma rede para compartilhamento de dados referentes ao crime.
O juiz da 3º Vara Criminal de Lages, Ariovaldo Rogério Ribeiro, acrescentou que a solução para o problema, dada a sua dimensão e caráter endêmicos, requer a união de todos os setores da sociedade. “Não conheço nenhuma medida eficiente por si só contra esse mal. Precisamos encontrar um instrumento eficaz para combatê-lo, que só virá com a união de todos”, ressaltou.

Proerd

Para prevenir o uso e tráfico de drogas, e todas as formas de violência associadas a ele, desde 1998 o estado conta com o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), desenvolvido pela Polícia Militar. O programa, de caráter preventivo, concentra-se em crianças e adolescentes em fase escolar e busca despertar a consciência para o problema, preparando pais e mães para que possam oferecer sustentação aos seus filhos.
A inspiração para o projeto surgiu do Drug Abuse Resistance Education (Dare), Educação para Resistir ao Abuso de Drogas, desenvolvido em 1988 pela polícia de Los Angeles, Califórnia (EUA), por meio de um grupo composto por psicólogos, policiais e pedagogos. No Brasil, o Dare chegou em 1992, através da Polícia Militar do Rio de Janeiro, tendo recebido o nome de Proerd, após terem sido feitas adaptações metodológicas para a realidade cultural brasileira.
Lages e, posteriormente, Chapecó e São Miguel do Oeste, foram as cidades pioneiras na implantação do programa em Santa Catarina, que possibilitou, já no primeiro ano, a formação de 4.404 crianças. Para o ano de 2011, a coordenadoria estadual do Proerd estima atender 100 mil catarinenses, perfazendo um total de 1 milhão de crianças formadas nos 13 anos de existência do programa.
Coordenador regional do Proerd, o ten cel. da PM, Mário Renato Erzinger, afirmou que, a despeito dos bons resultados apresentados, o programa vem passando por um momento de restrições, com a diminuição de investimentos. A regional de Lages, exemplificou, conta atualmente com três instrutores, quantidade considerada insuficiente para atender aos 21 municípios do seu entorno. “Temos dificuldades até mesmo para deslocar viaturas para esses locais, além de deficiências materiais para atender a toda a demanda. Fica difícil motivar os policiais para irem para a sala de aula”, confidenciou. Há nove anos atuando como instrutor do Proerd, Erzinger cobrou ainda a realização de pesquisas com egressos do programa e alunos do ensino médio como forma de medir o nível de eficácia das medidas adotadas.
O vereador do município de Lages, Márcio da Silva Machado, lançou também a ideia de que o programa seja estendido para as redes sociais da internet, como forma de atingir maior quantidade de jovens.

Alcoolismo e tabagismo

Considerada uma ideia ainda polêmica no país, a repreensão ao consumo de bebidas alcoólicas, a exemplo do que foi feito com o tabagismo, foi defendida por grande parte dos participantes da audiência pública. Coordenador regional do Proerd, Mário Erzinger afirmou que, a despeito do propagado, não é a maconha, mas o álcool e o tabaco as verdadeiras portas de entrada para o uso de entorpecentes. “É fundamental a parte preventiva feita pela família e pela escola, mas também uma mão mais forte do estado”, defendeu.
Comandante do 5º Batalhão do Corpo de Bombeiros de Lages, o ten. cel. Egon Carlos Heinzen, acrescentou que grande parte do atendimento prestado pela corporação refere-se à casos envolvendo o uso excessivo de bebidas alcoólicas. “Temos que orientar, acompanhar o dia-a-dia dos nossos filhos para que não entrem neste mundo, que é a porta de entrada ao uso das drogas”, disse.
Na mesma linha, o coordenador do Conselho Municipal Anti-Drogas, Argeu Couto, afirmou que o álcool causa tantos prejuízos à sociedade quanto a maconha ou a cocaína, mas conta com a leniência do estado. “O álcool é uma droga que o usuário nega, a família esconde e a sociedade discrimina”, disse. Couto, que também coordena um grupo de Alcoólicos Anônimos (AA), afirmou ainda que 42% dos jovens infratores do município são oriundos de famílias que apresentam problemas de alcoolismo. “Nenhum debate sobre as drogas terá eficiência se não colocarmos as bebidas alcoólicas em questão”, completou.
Tendo em vista o problema, o município serrano conta com cinco Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), voltados ao apoio e proteção à famílias em condição de vulnerabilidade. “Nossa meta é trabalhar a família, pois só deste jeito poderemos recuperar esses jovens, filhos de pais alcoólatras e usuários de drogas”, disse a secretária de Assistência Social de Lages, Marli Nassif.
Atento à iniciativa, o deputado Ismael dos Santos acrescentou que a disponibilização de centros de apoio e, principalmente, de tratamento são fundamentais para a recuperação de viciados e usuários de drogas. Segundo Ismael, pesquisa realizada pela USP com usuários de crack na cidade de São Paulo comprovou o fato. Conforme o estudo, ao final de 12 anos de monitoramento, dos 107 viciados pesquisados, 25% estavam mortos, 20% continuavam dependentes da droga, 12% deles estavam presos, mas cerca de 40% conseguiram superar o vício. A pesquisa mostrou ainda que, todos os que se recuperaram, tinham em comum o fato de terem passado por tratamentos com pelo menos 30 dias de internação. “É alentador saber que há recuperação, desde que haja boa vontade e uma rede de tratamento”, frisou o parlamentar.
Participaram ainda do debate o prefeito de Correia Pinto, Vânio Foster, e o presidente da Associação Comercial e Industrial de Lages (ACIL), Roberto Amaral. Já realizado em Chapecó (20/05), o “Santa Catarina Sem Drogas” segue para as cidades de Joinville (1º/07), Blumenau (1º/08), Criciúma (15/08), Itajaí (22/08) e Florianópolis (29/08), sendo que nesta última está confirmada a presença do governador Raimundo Colombo. (Alexandre Back)

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