
A importância dos manguezais catarinenses foi tema de encontro organizado nesta terça-feira (23), como evento da programação do Mês do Meio Ambiente na Assembleia Legislativa.
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Especialistas, pesquisadores e representantes da sociedade debateram sobre o tema, para discutir a importância da preservação desses ecossistemas, bem como seus impactos sociais e econômicos em Santa Catarina.
O Encontro sobre Manguezais Catarinenses, realizado no Plenarinho Deputado Paulo Stuart Wright, foi organizado pelo Instituto Mauro Passos de Proteção Ambiental e Climática (Impac), em parceria com a Comissão do Meio Ambiente da Alesc.
Valorização social e econômica
Os mangues, além de estratégicos do ponto de vista ambiental para a preservação de muitas espécies, podem se tornar importantes ativos econômicos. Têm quatro vezes mais capacidade de capturar carbono em relação às florestas, e retêm o carbono por mais tempo.
Os manguezais estão entre os ecossistemas mais importantes do planeta. Além de berçário para diversas espécies marinhas, desempenham papel essencial na proteção da biodiversidade, na contenção da erosão costeira e no combate às mudanças climáticas, pela elevada capacidade de captura e armazenamento de carbono.
Por isso precisam ser cuidados e monitorados, tornando-se ativos ambientais de maior valor, com a geração do chamado “carbono azul”, cujos créditos podem, inclusive, ser comercializados com empresas, gerando recursos para o setor público.
Riscos crescentes em várias regiões
O deputado Marquito (Psol), presidente da comissão, destacou os riscos enfrentados pelos manguezais.
Ele cita, como exemplos, a degradação que ocorre especialmente na área da Baia da Babitonga, sede de aproximadamente 70% dos manguezais catarinenses, sob impacto severo causado pela expansão de empreendimentos portuários.
Ele também alerta para o avanço sobre áreas de mangues por conta da especulação imobiliária.
O parlamentar observa que, “enquanto se fala da importância da criação de cidades esponjas, se destrói ecossistemas que já são esponjas naturais”.
Conhecer para preservar
O engenheiro e ambientalista Mauro Passos, ex-deputado federal e fundador do Impac, explica que seu instituto foi criado visando ampliar o conhecimento sobre esses ecossistemas.
“Só preservamos aquilo que conhecemos, e os manguezais são ecossistemas estratégicos para o equilíbrio ambiental, proteção da biodiversidade e para o enfrentamento da crise climática.”
O instituto iniciou em 2025 um trabalho com alunos de escolas públicas de Santo Amaro da Imperatriz, levando 674 crianças para visitas guiadas em matas da área da Serra do Tabuleiro. Agora, o objetivo é criar visitas guiadas ao mangue do Itacorubi, em Florianópolis.
Incluir a conscientização ambiental no calendário das escolas, em sua opinião, evita a repetição de erros. Daí o projeto “Viva o Mangue”, que pretende ampliar a atividade ao público em geral, como experiência de contato direto com a natureza, promovendo conhecimento sobre a biodiversidade do manguezal e sua importância para o equilíbrio ambiental.
Fundamentais ao equilíbrio planetário
O professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), biólogo Paulo Horta, alerta que os “manguezais são florestas marinhas fundamentais para o equilíbrio planetário”.
Também enfatiza que são ambientes capazes de cuidar da qualidade da água e recuperar a balneabilidade de praias.
Ele lembra que embora os mangues sejam ambientes que resistiram a grandes ciclos de destruição da vida, nos últimos 30 anos estão sendo severamente ameaçados.
Horta conta que, no último ano, só em nossas imediações, foram registrados episódios de mortalidades de peixes e outras espécies por falta de oxigenação das águas em mangues em Palhoça, Biguaçu e Florianópolis.
“Os limites planetários foram implodidos”, alerta o professor. “Os oceanos estão poluídos, mais quentes, e não param de subir, e os manguezais não são imunes a essa situação”.
Vida regida pela dinâmica das águas
O também biólogo e professor da UFSC, Paulo Pagliosa, explica que os manguezais são capazes de sequestrar quatro vezes mais gás carbônico que as florestas, e reter o carbono de 12 a 30 vezes mais. Além disso, são habitat de vertebrados e invertebrados, de seres muito diversos, entre os quais aves que só sobrevivem ali.
Ele alerta que os mangues são ambientes regidos pela dinâmica das águas, ou seja, a vida ali só se desenvolve entre o nível médio do mar e o nível da maré mais alta. “Tudo é regido pela conectividade aquática, com profunda ligação hidrológica”.
Daí, segundo Pagliosa, o risco de intervenções humanas que não levam em conta particularidades ambientais.
“Nos últimos anos, vimos mais de 100 solicitações de construções de moles e piers em Santa Catarina, e 18 solicitações de aterros de praias”, alerta, lembrando que, nesses casos, 40% da área colocada na praia costuma ir embora em duas semanas.
Créditos ambientais são como tesouro
O último palestrante do encontro foi Carlos Alberto Ferreira, diretor executivo da Carbon Zero, empresa do Paraná que faz negociação de créditos ambientais.
Ele conta que grandes empresas de cabotagem, de exportação e logística, ou as que assumiram compromissos climáticos, querem investir em preservação de áreas que possam ser comprovadamente monitoradas.
Segundo explica, manguezais, alagados e pradarias marinhas desempenham importante papel ambiental. Citou os 6,3 mil hectares da Baía de Babitonga como “um tesouro de Santa Catarina”, relacionando chamado “crédito azul” ao carbono acumulado sob as águas de áreas como os manguezais, que podem render entre 60 e 70 dólares por hectare/ano para municípios e estados.
“Ao protegermos os manguezais estamos protegendo áreas que prestam serviços ambientais essenciais, com enorme capacidade de armazenamento de carbono”, diz Ferreira, para quem “crédito de carbono azul auditável é mosca branca”.
“Precisamos procurar entender o que representam esses ativos”, reforça. “São fundamentais para a conservação e recuperação ambiental, melhoria da qualidade da água e da biodiversidade”.
ALESC EXPLICA
São ecossistemas costeiros localizados em áreas de transição entre rios e o mar, caracterizados pela presença de vegetação adaptada à água salobra e pela elevada biodiversidade.
É o carbono capturado e armazenado por ecossistemas costeiros, como manguezais, alagados e pradarias marinhas, contribuindo para o combate às mudanças climáticas.
São certificados que representam a redução ou o armazenamento de gases de efeito estufa e podem ser comercializados por empresas e instituições interessadas em compensar emissões.
Além de servirem como berçário para diversas espécies, os manguezais ajudam a proteger a biodiversidade, reduzir a erosão costeira, melhorar a qualidade da água e armazenar grandes quantidades de carbono.

