Comunicação

Congresso discute boas práticas para o parto humanizado hospitalar


Ludmilla Gadotti
17/06/2016 - 19h17min

Vera Bonazzi, enfermeira do HSF, de Belo Horizonte (MG), considerado referência em parto humanizado no SUS

Vera Bonazzi, enfermeira do HSF, de Belo Horizonte (MG), considerado referência em parto humanizado no SUS

FOTO: Fábio Queiroz/Agência AL

Os resultados positivos obtidos com a incorporação de boas práticas para o parto humanizado nos hospitais foram abordados na mesa de debate que abriu o último dia de atividades do 2º Congresso Nacional do Parto Humanizado, na manhã desta sexta-feira (17), na Assembleia Legislativa. O evento é uma iniciativa da Comissão de Saúde do Parlamento catarinense.

As debatedoras apresentaram as experiências vivenciadas no Hospital Santo Antônio, de Blumenau, na Maternidade Carmela Dutra e no Hospital Universitário (HU), ambos de Florianópolis. Destaque para o relato da enfermeira obstetra Vera Bonazzi, do Hospital Sofia Feldman (HSF), de Belo Horizonte (MG), considerado referência em parto humanizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Definição
Conforme a ginecologista e obstetra Roxana Knobel, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), as boas práticas na assistência são baseadas em evidências científicas para promover melhores resultados obstétricos e prevenir desfechos neonatais negativos. “Estudos mostram a melhor forma, a mais segura, a que proporciona melhores resultados maternos e perinatais, para o bebê”, disse. “Basicamente, são formas de não intervenção. Ou seja, acreditar que o parto é um evento fisiológico, que a mulher é capaz de parir e o bebê é capaz de nascer. Mas ter sempre cuidado, ficar vigilante para, caso surja qualquer complicação, poder intervir prontamente”, complementou.

Sofia Feldman
O HSF atende cerca de 1.000 partos por mês e possui uma das maiores unidades de neonatologia do país em número de internações. Com assistência humanizada à mãe, ao bebê e à família, é referência para o Ministério da Saúde, que, por meio do Programa Rede Cegonha, propõe mudanças no modelo assistencial praticado no Brasil. “Possibilitar que o nascimento ocorra num ambiente humano, acolhedor, vinculante, prazeroso e seguro é contribuir para que o potencial do nascimento de mudar o mundo e de construir a paz aconteça”, ressaltou Vera.

O hospital é uma fundação filantrópica 100% SUS que serve de modelo de boas práticas para uma assistência respeitosa, centrada no usuário e baseada em evidências científicas. “Mesmo trabalhando 100% SUS, conseguimos realizar o que acreditamos, o que a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde recomendam, e o que a população deseja, que é assistência humanizada, de qualidade e, principalmente, digna. Temos que lutar pelo SUS, que existe para cuidar de todos, não somente dos pobres”, frisou a enfermeira obstetra.

O Sofia Feldman oferece assistência multi e interdisciplinar, favorece a presença do acompanhante em tempo integral, incentiva o parto normal – inclusive com acesso ao parto na água –, possibilita livre escolha para a posição no trabalho de parto e parto, proporciona métodos não farmacológicos para alívio de dor (uso de bola de pilates, escada Ling, cavalinho, banquinho “U”, banho morno, massagens corporais, exercícios respiratórios) e práticas integrativas (acupuntura, reflexologia, escalda-pés, reiki, auriculoterapia), estimula o aleitamento materno, mantém um programa de doulas comunitárias, entre outras ações.

O setor de estatísticas do HSF registrou, neste ano, 74,4% de partos naturais, 2,3% com fórceps ou vácuo extrator e 23,3% cesáreas. As mulheres atendidas pela instituição tiveram, em 96,7% dos casos, a presença de acompanhante de sua livre escolha. O índice de analgesia é de 23,7% e a taxa de episiotomia, um corte cirúrgico realizado na região do períneo para facilitar a passagem do bebê, é de 2,6%. “Esse setor é de extrema importância para mostrar à sociedade o que está sendo feito. Também é fundamental para avaliarmos os dados e trabalharmos para melhorar o atendimento.”

Atuando no Sofia Feldman desde 1999, Vera declarou ser apaixonada pelo trabalho desenvolvido pela instituição. Embora seja um exemplo para todo o país, ela comentou que o hospital também enfrenta dificuldades. “Lá não é um mar de rosas, temos muitos problemas, dificuldades financeiras, de relacionamento interpessoal, como todas as instituições hospitalares, mas lutamos para superar os obstáculos.”

A enfermeira obstetra mostrou fotografias da estrutura física do Sofia Feldman, que conta com 186 leitos, mas destacou que o principal é o comprometimento da equipe profissional. “Não esperamos que copiem o Sofia Feldman, mas que levem essas vivências de trabalho compartilhado, colaborativo, entre os vários profissionais que atuam nessa área para outros locais.”

Hospital Santo Antônio
Considerado referência no serviço materno-infantil, para gestação de alto risco e prematuridade, o Hospital Santo Antônio de Blumenau atende 14 municípios da Associação dos Municípios do Médio Vale do Itajaí. A instituição contabiliza uma média mensal de 300 nascimentos. De janeiro a março de 2016, foram realizados 912 partos, sendo 642 normais e 270 cesáreos.

O centro obstétrico do Santo Antônio conta com uma equipe multidisciplinar, composta por médicos e enfermeiros, além de profissionais das áreas de nutrição, assistência social e psicologia para serviços complementares. O diferencial da instituição é, na avaliação da enfermeira Roberta Salvador, a presença de 16 enfermeiras obstetras, distribuídas em quatro turnos. “A incorporação delas na equipe faz toda a diferença para a mudança na qualidade da assistência”, ressaltou.

A atuação das enfermeiras obstétricas contribuiu, segundo Roberta, para a diminuição da taxa de cesariana e a redução do número de intervenções no trabalho de parto e parto. A equipe médica fica resguardada aos casos de alto risco. A atuação das também proporcionou maior satisfação das mulheres com o processo de parturição e credibilidade da população na assistência prestada. “Ainda não está perfeito, mas nós podemos mudar essa realidade. Assistimos mulheres se transformando, não fazemos o parto. Na verdade, me vejo como uma parteira. É preciso se empoderar para empoderá-las”.

Indicadores do Hospital Santo Antônio – Rede Cegonha

Parto normal 71%
Cesariana 29%
Uso de ocitocina 27%
Dieta sob livre demanda 62%
Episiotomia 2%
Uso de métodos não farmacológicos para alívio da dor 67%
Contato imediato pele a pele efetivo 74%


Hospital Universitário
O HU de Florianópolis iniciou as atividades em 1995, baseado em uma série de princípios básicos que norteiam a assistência, como a atuação integrada de equipe interdisciplinar – qualificada, treinada e supervisionada continuamente – para prestar um atendimento adequado à mulher, ao recém-nascido e à família.

A instituição oferece, desde 1996, a possibilidade de parto verticalizado, com a rotina de enfermagem de levar a mulher para conhecer as salas de parto e permitir que escolha a de sua preferência. “O HU foi muito vanguarda”, comentou Roxana.

A médica apresentou dados comparativos da realidade nacional e do Hospital Universitário sobre boas práticas para o parto humanizado hospitalar. Ela usou como referência a pesquisa “Nascer no Brasil”, de 2011, e o levantamento sobre nascimentos no HU de 2010 a 2013, além da observação prática.

Roxana ressaltou que o HU tem uma taxa de cesáreas de 35,6%, número abaixo da média brasileira (51,9%). Segundo a médica, avanços foram conquistados com a incorporação de boas práticas, como a presença de acompanhante de escolha da mulher, o uso do partograma, a utilização de medidas não farmacológicas para alívio da dor, além de evitar a episiotomia de rotina e a posição de parto litotômica (paciente com as costas na cama).

Na avaliação da ginecologista e obstetra, alguns aspectos ainda precisam ser melhorados no Hospital Universitário. Ela citou o jejum, o uso de ocitocina no trabalho de parto e de analgesia farmacológica. “Minhas propostas são investir em treinamento e educação continuada da equipe, valorizar os recursos humanos, promover o feedback da equipe e a transdisciplinaridade e conhecer as taxas do serviço.”

Indicadores Brasil x HU

  Brasil HU
Alimentação 25,6% variável (conforme equipe de plantão)
Movimentação 46,3% praticamente todas as parturientes recebem orientação para livre movimentação
Procedimentos não farmacológicos para alívio da dor 46,3% 97,3%
Presença do acompanhante em toda a internação 18,8% 97,3%
Uso do partograma 44,2% todas as parturientes em trabalho de parto
Ocitocina 38,2% 62% das mulheres tiveram partos induzidos
Analgesia peridural 31,5% variável (conforme a equipe de plantão)
Parto em posição de litotomia  91,7% 11,7%
Episiotomia 56,1% 5,22%
Cesarianas 45,5% (risco habitual)
51,9% (todas as mulheres)
35,6%
Partos naturais 5,6% sem dados

Carmela Dutra
A Maternidade Carmela Dutra, de Florianópolis, tem uma média mensal de 338 partos, sendo 64% normais e 38% de alto risco, de acordo com dados da pediatra Lissandra da Silva Mafra Andújar.

Na opinião da médica, o nascimento de um bebê representa a mais dramática transição fisiológica da vida humana. “Em nenhum outro momento o risco de morte ou lesão cerebral é tão elevado. O nascimento seguro e o início de vida saudável são o coração do capital humano e do progresso econômico do país.”

As intervenções necessárias para reduzir a morbidade e a mortalidade neonatais pautaram a apresentação da pediatra. Segundo Lissandra, são registrados 2,9 milhões de óbitos neonatais por ano no mundo. No Brasil, de 2005 a 2010, foram notificados entre 5 e 6 mortes precoces por dia. “As medidas de prevenção primária incluem a melhora da saúde materna, o reconhecimento de situações de risco e recursos humanos capacitados para atender o parto e identificar complicações obstétricas. Além disso, pontuo a reanimação neonatal imediata e o tratamento das complicações do processo asfíxico.”

A rotina da instituição estabelece que todos os partos de risco habitual são assistidos por pediatra e todos os partos de alto risco são assistidos por neonatologista. Na avaliação de Lissandra, uma assistência adequada requer uma equipe treinada em reanimação neonatal, o conhecimento das condições associadas à necessidade de reanimação ao nascer, assim como a preparação, o teste e a disponibilização de todo o material indispensável antes do nascimento de qualquer recém-nascido.

Conforme a pediatra, 1 em cada 10 recém-nascidos necessita de ajuda para iniciar a respiração efetiva, 1 em cada 100 precisa de entubação traqueal e 1 em cada 1.000 requer entubação acompanhada de massagem cardíaca e ou medicação.

Ao mostrar o projeto de ampliação da maternidade, que prevê o aumento no número de leitos (UTI neonatal, cuidados intermediários convencionais e canguru), Lissandra fez um apelo. “É um sonho. Dos 21 leitos atuais passaremos para 45. Temos esse projeto há 10 anos, mas ainda não conseguimos sensibilizar os governantes para executar a obra.”

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