
O cabeleireiro Paulo Henrique Bockor, de 19 anos, natural de Guarapuava, no Paraná, é hoje alvo de admiração na cidade de Canoinhas. Não tanto pelo prêmio que recebeu como um dos melhores profissionais na sua área, mas por demonstrar, por meio da sua trajetória, que é possível redefinir os rumos da vida, ainda que as circunstâncias não sejam favoráveis. Paulo foi adotado poucos meses antes de completar 18 anos, data limite para a permanência na instituição de acolhimento onde morava há seis anos. Hoje diz sentir-se totalmente acolhido na nova família, formada por seus novos pais e dois irmãos e feliz com a profissão que escolheu.
A história de Paulo foi evidenciada na visita ao Lar São Francisco de Assis, na manhã de sexta-feira (04), pela deputada Dirce Heiderscheidt (PMDB), integrante da Comissão de Direitos e Garantias Fundamentais, de Amparo à Família e à Mulher. A ação faz parte da campanha Adoção – Laços de Amor, realizada pela Assembleia Legislativa, Tribunal de Justiça, Ministério Público de Santa Catarina e OAB/SC, com o objetivo reduzir o número de crianças em casas de acolhimento, estimulando a adoção tardia.
Localizado em Três Barras, município do Planalto Norte, o São Francisco abriga crianças e adolescentes do sexo masculino, de sete a 18 anos, de toda a região, e é hoje o lar de oito internos, sendo dois aptos à adoção. Desde 2008 é administrado pelo Grupo de Estudos e Apoio à Adoção de Canoinhas (GEAAC), formado por voluntários e uma equipe de nove funcionários, entre educadores, pedagogos e assistentes sociais, monitores, cozinheiras e diaristas. O grupo promove cursos de orientação para casais interessados em adotar uma criança e disponibiliza o atendimento em saúde por meio de um convênio médico, o que garante até dez consultas mensais.
Coordenadora do São Francisco de Assis, Lucimara Gonçalves de Souza destacou que as características socioeconômicas da região explicam o motivo pelo qual todos os anos inúmeras crianças sejam encaminhadas à instituição. “Esta é uma região muito pobre, com elevados índices de alcoolismo e de uso de drogas, o que contribui para que sempre haja demanda por novas vagas”, explicou.
Grande parte das crianças que chegam ao lar, prosseguiu Lucimara, apresenta déficit de aprendizagem, tornando necessário acompanhamento especial por educadores antes que possa ser feita a inserção na escola regular. “Uma parceria com a Universidade do Contestado também garante vagas em estágios e cursos de qualificação, tais como informática e inglês, nas quais os abrigados de maior idade possam aprender uma atividade profissional que lhes garanta futuramente geração de renda”, disse. Sempre que possível, acrescentou, os internos recebem visitas de seus familiares e é estimulada a participação na vida comunitária como forma de manter os laços sociais.
Somente no último ano, foram acolhidas 12 novas crianças e adolescentes na instituição, sendo metade proveniente de Canoinhas e o restante dos demais municípios da Comarca, que congrega ainda Três Barras, Bela Vista do Toldo e Major Vieira. Cinco delas voltaram para seus núcleos familiares e uma outra para parentes biológicos.
Falta de recursos
Apesar dos resultados obtidos, o Lar São Francisco de Assis luta para manter a estrutura em funcionamento. Os recursos necessários para manter a instituição, entre verbas governamentais e doações, vêm minguando ao longo do tempo. Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) do Ministério Público foi necessário para garantir os repasses por parte dos municípios da Comarca. No momento, apenas Canoinhas vem cumprindo o estipulado. “Infelizmente essa é uma realidade que não é só nossa, mas também de abrigos como o Santa Clara e a Associação Espírita Lar de Jesus, que atendem meninas e crianças até sete anos”, revelou Lucimara.
Ela criticou ainda a falta de políticas públicas que contemplem a região com centros de referência especializados de assistência social (CREA), unidades que prestam auxílio a famílias em situação de vulnerabilidade. “As instituições de acolhimento deveriam ser o último lugar para onde estes jovens deveriam ser encaminhados, justamente o contrário do que acontece. A falta de estrutura dos municípios está tornando os abrigos verdadeiros depósitos de gente. Recebemos até mesmo crianças com deficiência mental, mesmo sem a mínima condição de abrigá-los”, protestou.
As limitações ficam flagrantes até mesmo na hora de fazer o deslocamento dos abrigados. O São Francisco não possui veículo próprio, o que obriga os assistentes sociais a buscarem soluções alternativas, como solicitar a cessão de um veículo da prefeitura, o uso de automóveis dos funcionários da casa ou mesmo transporte coletivo. “Eles têm que aprender a andar de ônibus porque, infelizmente, a realidade deles é essa”, lamentou Lucimara.
Nova sede
Em meio a dificuldades, a presidente do GEAAC, Karin Diettrich, adiantou que a atual estrutura do abrigo, insuficiente e com graves problemas de infiltração, dará lugar a uma sede nova, planejada dentro do que prevê o Conselho Nacional de Crianças e Adolescentes (Conanda). Ela revelou, entretanto, que os recursos destinados à obra, provenientes do governo do Estado, foram reduzidos em mais da metade, o que fez com que tivessem que abrir mão de três salas, dois dormitórios e uma quadra de esportes. Com isso, a capacidade final também diminuirá de 20 para 10 vagas. “Vai melhorar, ainda que de forma precária”, afirmou resignada. Ela observou ainda que durante a mudança para o novo lar grande parte do mobiliário também ficará para trás, pois pertencem ao antigo mantenedor da instituição. “Vamos sair daqui com as crianças e umas três ou quatro coisas, mas estamos otimistas”, disse. (Alexandre Back)

