Comunicação

A vida nas casas de acolhimento


19/10/2011 - 20h38min

Visita à Associação Beneficente Nossa Casa em Criciúma

Visita à Associação Beneficente Nossa Casa em Criciúma

Uma adolescente de 15 anos, de Criciúma, está com o quarto preparado para o nascimento de seu bebê, que deve ocorrer em poucas semanas. As dificuldades e medos freqüentes de uma gravidez precoce não a impedem de freqüentar a escola, mas sua vida já está alterada há três anos, quando foi acolhida, junto com três irmãos, pela Associação Beneficente Nossa Casa. Nem todos estão juntos agora: um dos irmãos foi adotado pelo tio e outra, também adolescente, agora está morando com o namorado. Apenas a jovem grávida e o irmão de oito anos permanecem na Nossa Casa, que também será o lar de seu novo bebê.
A história desse grupo de irmãos não é diferente de outro grupo, ainda maior, com sete irmãos acolhidos pela associação. “Estamos hoje com 18 crianças e adolescentes. Nossa lotação maior é de 20, mas já chegamos a receber quase 40 que precisavam de acolhimento”, informa a psicóloga Maria Cármen Nagel Búrigo, coordenadora da Nossa Casa. Ela está na entidade desde a sua fundação, há 13 anos, período em que viu passarem 722 crianças e adolescentes pela Nossa Casa. “Calculo que apenas 50% delas foram adotadas”, afirma Maria Cármen. Os demais foram reinseridos em suas famílias biológicas ou alcançaram os 18 anos e seguiram, quase sempre sozinhos, a sua caminhada.
A Associação Beneficente Nossa Casa foi visitada na manhã desta quarta-feira, dia 18, pela deputada Dirce Heiderscheidt (PMDB), integrante da Comissão de Direitos e Garantias Fundamentais, de Amparo à Família e à Mulher. A visita integra as atividades do ciclo de audiências públicas, promovidas pela Assembleia Legislativa, e que nesta tarde acontece na Câmara Municipal de Criciúma, com objetivo de avaliar as condições dos processos de adoção e das casas de acolhimento em Santa Catarina. As audiências têm parceria da campanha Adoção – Laços de Amor, promovida pelo Parlamento estadual, Tribunal de Justiça, Ministério Público de Santa Catarina e OAB-SC. “É importante conhecer as casas antes dos debates para conhecer a realidade e promover uma discussão alinhada com as necessidades”, destacou a parlamentar.

IDAS E VOLTAS
Criciúma tem hoje 25 crianças e adolescentes em duas casas de acolhimento, sendo que sete meninos, entre 12 e 18 anos, moram no Lar Azul. Os demais estão na Nossa Casa, uma Organização Não Governamental que sobrevive por intermédio de doações de pessoas físicas, jurídicas e convênios com prefeitura, Estado e União. Quinze funcionários trabalham na instituição: duas psicólogas, uma assistente social, duas cozinheiras, seis educadores sociais (cuidadores) e quatro profissionais de serviços gerais. Os custos gerais de atendimento e alimentação das crianças, incluindo a manutenção da casa, alcançam cerca R$ 21 mil ao mês. “Temos alguns voluntários, como dentista e pedagoga, que auxiliam nossas crianças e jovens”, destaca Maria Cármen.
A coordenadora da associação mantém contato com as crianças e adolescentes mesmo depois de saírem da Nossa Casa e já acompanhou algumas situações dolorosas, em especial as de devolução, durante o período de guarda provisória dos pais adotivos, de algumas crianças. Foram situações dramáticas, uma inclusive envolvendo violência e todas gerando grandes frustrações. “As crianças e jovens já trazem uma história de negligência e até de abusos, não é possível que esse tipo de atitude não receba uma punição severa”, defende.
Mãe adotiva, Maria Cármen fala com orgulho de seus filhos Patrícia, hoje com 37 anos, e Gustavo, com 40 anos. Talvez por isso, seu olhar materno recaia com amor em todos os que passam pela Nossa Casa. Ela ainda ministra parte dos cursos preparatórios dos inscritos nos cadastros de adoção. “Por sorte, temos mais finais felizes que tristes”, garante.

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