Ponte Hercílio Luz chega ao centenário como marco histórico catarinense
Obra rompeu o isolamento da Capital e transformou a mobilidade do estado
Construção envolveu desafios técnicos, alto custo e resistência política
Monumento consolidou-se como patrimônio afetivo, cultural e arquitetônico
Centenário reafirma a Ponte Hercílio Luz como símbolo de Santa Catarina
Especial 100 Anos – Ponte Hercílio Luz
1926
2026
Arraste a barra para o lado e compare o passado e o presente do principal cartão postal de Florianópolis.
Há muitos anos, no ano novo, as esperanças dos florianopolitanos e de milhares de turistas que visitam a capital catarinense se renovam com a cena da cascata de fogos de artifícios na Ponte Hercílio Luz.
A ponte, que é símbolo de Florianópolis e um dos cartões postais do Estado, tem em sua representatividade a resiliência dos catarinenses.
Por sua história cheia de significados, de integração, de convívio com a natureza e a nossa gente, e pela resistência que foi posta à prova, diante do risco iminente de queda e de um longo período de interdição, que resultou num restauro completo, festejado como uma conquista comunitária.
Agora centenária, a Hercílio Luz é considerada um marco indelével da cidade.
É mais que uma obra de engenharia, tornou-se um monumento, obra de arte, memória de Santa Catarina.
Obra rompe isolamento da Capital e muda a história de Florianópolis
A ponte chega aos 100 anos, mas a história da ligação da Ilha de Santa Catarina ao continente antecede à obra iniciada em outubro de 1924.
O primeiro registro sobre a expectativa de se construir uma estrutura permanente de ligação com a Capital, cuja sede administrativa dependia de transporte marítimo, e de abastecimento por barcos, data de 1891.
O isolamento da cidade, ainda denominada Nossa Senhora do DesterroNome original de Florianópolis até 1º de outubro de 1894, quando o governador Hercílio Luz — o mesmo que décadas depois construiu a ponte homônima — sancionou a lei que renomeou a cidade em homenagem ao marechal Floriano Peixoto, segundo presidente da República., levava ao questionamento de muitos catarinenses sobre a possibilidade de interiorizar a Capital, levando o centro administrativo para a Serra, onde Lages era apontada como opção preferencial, ou Curitibanos.
Decisão por estrutura pênsil marcou projeto liderado por Hercílio Luz
Hercílio Luz, que governou Santa Catarina em três mandatos, tornou-se figura decisiva para a construção da ponte.
Em seu primeiro mandato, de 1894 a 1898, o assunto já era recorrente na pequena cidade onde nasceu o então governador.
No segundo, a partir de 1918, o então engenheiro formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, com passagem por universidades na Bélgica, já havia decidido empreender, tendo inclusive prometido a sua mãe que construiria a ponte quando ambos enfrentaram um dia de travessia tormentosa entre o continente, então parte do município de São José, e a já redenominada Florianópolis.
Ele conheceu na Europa várias estruturas de pontes metálicas, e decidiu por uma ponte pênsil, sustentada por cabos de tirantes que dispensavam o apoio sob o vão principal.
Encomendou o projeto com a empresa American Bridge, especializada neste tipo de obra, que se tornou a plataforma de seu terceiro mandato como governador, a partir de 1922.
A estrutura veio toda desmontada, em navios, e foram criados dois grandes canteiros de obras, em suas cabeceiras continental e insular, com centenas de operários trabalhando em cada lado.
Liderança e legado consolidaram a denominação Hercílio Luz
A ponte do Estreito, depois chamada de Ponte da Independência, acabou rebatizada em função do deterioração da saúde de Hercílio Luz.
A obra já estava adiantada quando o governador, acometido por um câncer, teve seu quadro agravado em 1924, motivando uma simbólica inauguração de uma réplica, feita em madeira.
O líder político participou do evento já fragilizado, e foi aclamado pela população. Morreu poucos dias depois, e seu nome, em reconhecimento, já estava definido para a obra, concluída em 1926.
Quando foi inaugurada, a comunidade prestigiou o ato.
Mas a travessia de um vão suspenso com mais de 800 metros sobre o canal que separava a Ilha do continente foi vista com alguma desconfiança por muita gente.
Os ônibus da época, conhecidos como jardineiras, e os carros, a maioria Ford modelo T, todos com rodas bem finas, tinham o desafio de se equilibrar sobre os pranchões de madeira que serviam de piso sobre a estrutura metálica.
Desafios operacionais e mudanças estruturais marcaram a trajetória
Em dias de chuva, quando a madeira se tornava mais escorregadia, um descuido podia fazer o motorista ter que levar a travessia com seu veículo andando com as rodas esterçadas até o final, sem conseguir voltar ao trilho original.
Situação peculiar que se manteve até 1969, quando o piso foi asfaltado.
Solução que criou uma sobrecarga não prevista no projeto original da obra, e auxiliou o desgaste da estrutura, resultando em sua interdição, em 1982.
Vozes da Ponte
Depoimentos de familiares, especialistas e personagens ajudam a contar a história da Ponte Hercílio Luz em seus 100 anos.
Deputado propôs que a ponte se tornasse patrimônio histórico
Cesar Souza, comunicador e ex-deputado estadual
O comunicador Cesar Souza era deputado estadual, no final dos anos 90, quando apresentou um projeto de lei que pretendia garantir o tombamento da ponte Hercílio Luz como parte integrante do patrimônio histórico estadual. O projeto foi transformado numa indicação, o governo acabou se encarregando da iniciativa, também encampada pelo Patrimônio Histórico Nacional.
Cesar guarda na memória os passeios com os pais que incluíam a ponte, as caminhadas na passarela olhando o mar, lá embaixo, pelas frestas das madeiras do piso.
“Em 1996, eu estava na Assembleia e descobri que a ponte que encanta Santa Catarina e o Brasil, pela sua beleza e história, não era tombada. A ponte estava com problemas, o tráfego interrompido, e fiquei preocupado que ela pudesse se deteriorar com o tempo. Numa pesquisa, descobri que não tinha nenhuma lei da Assembleia, nem do Governo para transformá-la em patrimônio histórico e arquitetônico de Santa Catarina. Então apresentamos um projeto de lei”, ele conta, lembrando a justificativa: “Poderão ser promovidas reformas que se fizerem necessárias para manter a segurança estrutural da obra tombada desde que suas características como ponte pênsil não sejam afetadas. Ou seja, com a visão de que a ponte ficasse do jeito que ela está”.
Urbanista que participou do tombamento defende qualificação do espaço da ponte
Dalmo Vieira Filho, arquiteto e urbanista
O arquiteto e urbanista Dalmo Vieira Filho participou do processo de tombamento da ponte Hercílio Luz pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), e tem pleno entendimento de seu valor como monumento além da obra de engenharia. Ele defende a qualificação do espaço em seu entorno para ampliar o valor cultural.
“Esse objeto metálico quebrou o encanto da Capital na Ilha, pela beleza que incorporou no rol das coisas sentimentais e passou a ser o símbolo da cidade e do Estado, e isso não tem preço. Além de um objeto espetacular de engenharia, está na consideração efetiva de todo mundo que vive ou que passa por Florianópolis”.
Dalmo destaca a importância da ponte para garantir a Florianópolis o status de Capital. “Ela foi diretamente responsável pela preservação da Capital na Ilha. É uma obra divisora. A gente pode falar de Florianópolis e de Santa Catarina antes e depois da ponte”. E valoriza a obra em si: “Ela tem alguns quesitos de engenharia que são únicos do seu projeto, desde a construção, pois tudo foi importado. O material, o projeto e a concepção. E, sem dúvida, é uma obra de engenharia excepcional, do ponto de vista mundial”.
No processo de tombamento, a garantia de restauro foi uma questão levantada por conselheiros do Iphan: “Parte dos integrantes do conselho consultivo diziam que se não houvesse garantia da restauração, não deveria ser tombada, pois seria um tombamento patético. Imagine que ela pudesse cair ou ser desmontada”.
Bisneta de Hercílio Luz vê a ponte como integrante da família
Rita da Luz Rosa, bisneta do governador Hercílio Luz
Bisneta do governador Hercílio Luz, Rita da Luz Rosa hoje já é avó, e passa para os descendentes a memória familiar da figura que ela chama de “bisa”, um político que mudou a Capital com a decisão de construir a ponte ligando a Ilha de Santa Catarina ao continente.
Para ela, o destaque é que Hercílio, depois de já ter sido governador, foi para a Europa estudar, e retornou ao Estado mais capacitado para a administração pública, voltando ao cargo, quando decidiu construir a ponte. “Homem público tão importante que, além da ponte, virou nome do aeroporto da Capital, de avenida, até time de futebol”.
Rita morou fora com sua família, mas retornou a Florianópolis nos anos 80, em tempo de ainda passar pela ponte antes da interdição. Quando foi reaberta, levou um neto no colo para passear sobre a ponte monumento. Ela vê a ponte restaurada como integrante da família.
“A ponte é minha, porque eu tenho um nome, né? Então a gente mostra para os netos, olha ali a ponte do bisa. Eu tenho grande orgulho disso, sabe? Porque ela ficou muito tempo fechada,e foi como uma redenção ela ser entregue em 2019”.
Navegue entre os depoimentos
Matéria produzida a partir de entrevistas conduzidas pela jornalista Camila Levian, da TV Alesc.
ALESC EXPLICA
Por que a Ponte Hercílio Luz é símbolo da integração catarinense?
Porque sua construção rompeu o isolamento da Capital, que dependia de transporte marítimo, consolidando Florianópolis como o centro administrativo do Estado e unindo a Ilha ao Continente.
Qual a importância de Hercílio Luz para a execução da obra?
Engenheiro e governador em três mandatos, Hercílio Luz liderou a decisão por uma ponte pênsil metálica de alta tecnologia para a época, viabilizando o projeto que se tornou o principal cartão-postal de Santa Catarina.
Como foi a mobilização para a construção do monumento?
A obra envolveu um grande esforço logístico, com estruturas importadas e centenas de operários em canteiros nas cabeceiras continental e insular, marcando um dos maiores investimentos da história administrativa catarinense.
O que representou a inauguração da ponte em 1926?
Representou um marco de modernidade, permitindo a travessia de veículos e das antigas “jardineiras”, transformando a dinâmica social e econômica da região ao substituir as travessias por barcos.
Qual o significado do centenário da ponte para o Estado?
O centenário reafirma a Hercílio Luz como patrimônio afetivo e arquitetônico, celebrando a resiliência da estrutura, que passou por restauro completo e permanece como um ícone da engenharia mundial.