Comunicação

Entre o diagnóstico e a resistência: a realidade das mães atípicas e os avanços em Santa Catarina


Relatos e políticas públicas evidenciam desafios e iniciativas de apoio a famílias de pessoas com autismo no estado.

Valquíria Guimarães
20/04/2026 - 07h57min

Nadynne Chagas e seu filho Matheus.

Nadynne Chagas e seu filho Matheus.

Foto: Ana Quinto / Agência Alesc

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Diagnóstico marca mudança na vida de família catarinense

Abril de 2022. Mês de conscientização sobre o autismo.

Foi justamente nesse período há quatro anos que a vida de Nadynne Chagas mudou para sempre.

O diagnóstico do filho, Matheus, então com dois anos, com Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 3 de suporte, chegou após uma jornada de incertezas que começou com um detalhe aparentemente simples: o atraso na fala.

A suspeita inicial era de surdez. Exames, consultas com especialistas e encaminhamentos médicos levaram, enfim, ao laudo definitivo.

Mas, junto com ele, veio também um impacto profundo.

“Eu me vi perdida. Foi o maior baque da minha vida. Naquele momento, só conseguia pensar: como vai ser daqui para frente? Será que eu vou dar conta?”, relembra.

Separada do pai da criança, ela passou a carregar praticamente sozinha a responsabilidade pelos cuidados do filho.

Mais do que uma mudança na rotina, o diagnóstico trouxe um turbilhão emocional, marcado pelo medo, insegurança e pela sensação de estar diante de uma realidade sem pausa.

Nadynne  e Matheus, hoje com seis anos, são histórias com rosto e voz  que ganham visibilidade em Santa Catarina.  

Protagonismo: Parlamento amplia debate e políticas para mães atípicas

A crescente incidência de casos de transtorno do espectro autista tem mobilizado o Parlamento catarinense.

Na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência tem ampliado o debate e promovido ações em todo o estado para levar informação e apoio às famílias atípicas, lideradas em sua grande maioria, por mulheres. As mães atípicas.

A comissão também atua na formulação de políticas públicas e na aprovação de leis voltadas à proteção e ao suporte de pessoas com deficiência e seus familiares.

Entre os avanços recentes, estão legislações que reconhecem e apoiam as chamadas mães atípicas — mulheres que cuidam de filhos com transtornos neuro divergentes, como autismo e TDAH.

Entre as iniciativas lideradas pelo Parlamento estão a criação da Semana da Mãe Atípica, o Dia da Mãe Atípica, celebrado em 30 de novembro, e o programa “Cuidando de Quem Cuida”, voltado ao acolhimento dessas mulheres, mães atípicas.

Outro destaque é a Lei 18.557/2022,  que garante o pagamento de um salário mínimo mensal para mães em situação de vulnerabilidade social, responsáveis por pessoas com autismo em nível 3 de suporte.

O benefício é destinado a famílias com renda de até dois salários mínimos e já atende cerca de 467 famílias catarinenses, com investimento mensal superior a R$ 750 mil por parte do Estado.

A medida busca reconhecer o impacto financeiro e emocional enfrentado por essas mães, que muitas vezes precisam abrir mão da vida profissional para se dedicar integralmente aos cuidados dos filhos.

Inclusão escolar ainda apresenta desafios e avanços

Apesar dos avanços, o presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o deputado Dr. Vicente Caropreso (União), aponta que ainda há desafios, especialmente na inclusão escolar.

Enquanto algumas escolas estaduais têm conseguido avançar no atendimento, parte dos municípios ainda enfrenta dificuldades para garantir estrutura e profissionais qualificados.

Ele pontua que a comissão tem atuado de forma intensa diante do avanço dos casos de autismo.

A prevalência, que antes era de um caso a cada 150 nascimentos, hoje chega a um para cada 36, cenário que preocupa setores da saúde, educação e assistência social.

Diante desse contexto, o Parlamento promove seminários, encontros e debates em diversas regiões de Santa Catarina.

Em 2026, informou o parlamentar, estão previstos 22 eventos, sendo sete realizados no mês de abril, período marcado pela campanha Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo.

Um dos destaques é a Caravana da Inclusão, que percorre cidades catarinenses  com o objetivo de ampliar o acesso à informação qualificada.


“Há muita desinformação sobre o tema. Muitas pessoas ainda confundem o diagnóstico ou generalizam situações. Por isso, esses eventos são fundamentais para orientar famílias e profissionais”
Dr. Vicente Caropreso
Deputado
Dr. Vicente Caropreso

Ressalta o parlamentar destacando que  a informação, o acolhimento e o investimento em políticas públicas são essenciais para garantir qualidade de vida às pessoas com deficiência e suas famílias.

Entre o diagnóstico e a resistência: a rotina invisível de uma mãe atípica

Para Naddyne, um dos maiores desafios não está apenas no autismo em si, mas na forma como a sociedade enxerga — ou deixa de enxergar — a realidade das mães atípicas.

“Meu filho não é um problema. Ele é uma criança neurodivergente. Mas as pessoas confundem tudo. Acham que é exagero, que é vitimismo”, desabafa.

Ela fala que  as crises, comuns dentro do espectro, são frequentemente incompreendidas como birras.

“Situações como resistência a tarefas simples — comer, vestir-se ou realizar a higiene — podem se transformar em momentos intensos e desgastantes, invisíveis para quem está de fora”, explica.  

“Tem dias em que ele pode não querer usar uma roupa, não querer comer ou simplesmente entrar em crise. E ninguém entende o que isso significa dentro de casa.”

A solidão de quem cuida: sobrecarga e falta de apoio impactam famílias

A sobrecarga é constante. Sem uma rede de apoio efetiva, a mãe relata que precisou abrir mão da própria vida para dar conta das necessidades do filho.

Consultas médicas são adiadas, compromissos são cancelados e até momentos básicos de autocuidado se tornam raros.

“A mãe não tira férias. Não tem descanso. Não tem tempo para respirar. E, mesmo assim, a cobrança é sempre em cima dela.”

Segundo ela, há uma expectativa social de perfeição: espera-se que a mãe dê conta de tudo — trabalho, terapias, escola, rotina da casa — sem falhas.

“Se a criança está em crise, a culpa é da mãe. Se não evolui, a culpa é da mãe. Ninguém pergunta como essa mãe está”, pontua. 

Quando o trauma aprofunda a dor: episódio de violência marcou trajetória da família

Como se o diagnóstico e a rotina intensa não fossem suficientes, a família enfrentou um episódio ainda mais doloroso. Matheus foi vítima de maus-tratos em uma escola particular da Grande Florianópolis.

A descoberta veio de forma abrupta, por meio de um chamado policial.

“Eu entrei em estado de choque. Tive que assistir aos vídeos para confirmar. Aquilo me destruiu.”

O caso envolvia outras crianças e resultou na condenação da responsável pela instituição. Ainda assim, as marcas emocionais permanecem.

“Esses anos de prisão não apagam o que ficou. Eu nunca vou saber exatamente o que ele sentiu, porque ele não consegue me contar.”

Após o episódio, a mãe desenvolveu um bloqueio social e passou um longo período sem conseguir confiar o filho a outras pessoas. A vida, mais uma vez, precisou ser reconstruída.

Recomeços possíveis: busca por visibilidade e reconstrução da rotina

Quatro anos depois, ela começa, aos poucos, a retomar o próprio caminho. Matheus voltou à escola, com acompanhamento e adaptações.

Mas o processo foi lento e cheio de desafios.

“Eu precisei recalcular a rota mil vezes. Minha vida parou por muito tempo.”

Um recado para outras mães: relato reforça importância do acolhimento social

Mesmo diante de tantas dificuldades, ela deixa uma mensagem de força — e, sobretudo, de alerta.

“A sociedade adoece as mães atípicas. Mais do que o autismo, é a falta de compreensão que machuca.”

Para ela, o primeiro passo é aprender a silenciar as cobranças externas.

“Se a gente ouvir tudo o que dizem, a gente não aguenta. É preciso abstrair e, quando possível, cuidar de si — sem culpa.”

E reforça: mães atípicas não são frágeis, mas também não são invisíveis.

“A gente é forte, sim. Mas também precisa de acolhimento. Precisa ser vista”, desabafou.

Políticas públicas ampliam apoio às mães atípicas

A visibilidade que Nadynne e seu filho almejam está sendo conquistada através de políticas públicas chanceladas pelo Parlamento catarinense.

As iniciativas têm colocado Santa Catarina como referência em ações legislativas voltadas ao suporte, acolhimento e reconhecimento das mães atípicas — mulheres responsáveis pelo cuidado de filhos com deficiência, síndromes ou doenças raras.

As medidas buscam reduzir a sobrecarga enfrentada por essas mães, além de garantir direitos e ampliar a inclusão social.


ALESC EXPLICA

O que são mães atípicas?

São mulheres que cuidam de filhos com deficiência, transtornos ou condições neurodivergentes.

Quais políticas públicas existem em SC?

Leis como a 18.557/2022 e programas de apoio às famílias.

Quais os principais desafios?

Sobrecarga, falta de apoio e dificuldades na inclusão escolar.

O que a Alesc tem feito?

Promove debates, eventos e leis voltadas ao suporte dessas famílias.

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