
A decisão de adotar transformou completamente a vida do empresário Francisco Koch. Pai solo de cinco filhos, ele encontrou na adoção não apenas a realização do sonho da paternidade, mas também a razão mais forte da própria existência.
Entre desafios, renúncias e muito amor, a família construída ao longo dos anos se tornou exemplo de afeto, acolhimento e superação.
Já a servidora pública Rubia Decol, teve em Miguel o seu renascimento e a realização de um sonho: ser mãe. Eles não são apenas estatísticas, mas homens e mulheres que encontraram um propósito de vida, uma missão na generosidade do ato de adoção e acolhimento.
Data para refletir e conscientizar
No dia 25 de maio, o Brasil celebra o Dia Nacional da Adoção. Em Santa Catarina, o debate sobre o tema ganha cada vez mais relevância diante dos números do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e das iniciativas estaduais que incentivam especialmente a adoção de crianças e jovens.
Para o juiz-corregedor do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), Dr. Raphael Mendes Barbosa, que coordena o Núcleo de Direitos Humanos da Corregedoria do TJSC, a adoção exige preparo emocional, responsabilidade e reflexão profunda por parte dos pretendentes.
“A adoção é uma decisão que precisa ser muito amadurecida. Estamos tratando de vidas, de pessoas, de crianças e adolescentes que muitas vezes já passaram por situações graves de vulnerabilidade. Quem decide adotar precisa ter consciência de que será responsável pela segurança física, emocional e financeira dessa criança”, destacou.
Números que revelam
Segundo dados do Painel de Acompanhamento do SNA/CNJ, Santa Catarina possui atualmente 2.027 crianças e adolescentes acolhidos em instituições. Desses, 328 estão aptos à adoção e 255 já se encontram em processo de adoção. O estado contabiliza ainda 2.690 pretendentes ativos habilitados.
Em âmbito nacional, os números apontam 36.494 crianças e adolescentes acolhidos, 6.214 aptos à adoção, 6.167 em processo de adoção e 32.039 pretendentes cadastrados.
Painel SNA / CNJ · 25 de maio
Dados sobre adoção no Brasil
Crianças e adolescentes acolhidos em instituições
Cada ícone representa ≈ 3.600 crianças
Brasil
36.494
crianças e adolescentes
Santa Catarina
2.027
5,6% do total nacional
Fonte: Painel de Acompanhamento SNA / CNJ · maio 2025
Processo rigoroso
O magistrado explica que o primeiro passo para quem deseja adotar é o processo de habilitação junto ao Poder Judiciário. Para ingressar no cadastro de adoção, é necessário ter mais de 18 anos e uma diferença mínima de 16 anos em relação à criança ou adolescente pretendido.
O procedimento pode ser iniciado diretamente no serviço social do fórum da comarca ou por meio de pré-cadastro no portal do TJSC. Entre os documentos exigidos estão comprovante de renda, certidões negativas, documentos pessoais e certidão de casamento ou comprovação do estado civil.
Após a entrega da documentação, o processo passa por análise do Ministério Público, participação obrigatória em curso preparatório para adoção e estudo psicossocial. Somente depois dessas etapas o juiz decide pela habilitação do pretendente, que então é inserido no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento.
“O processo é rigoroso porque não estamos tratando de um objeto, mas de pessoas. A adoção precisa ser planejada, desejada e consciente. A partir do momento em que o pretendente recebe o telefonema informando que há uma criança dentro do perfil escolhido, toda a rotina de vida muda”, ressaltou o juiz.
Adoção tardia ainda é desafio
Apesar do avanço nos encaminhamentos para adoção em Santa Catarina, a adoção tardia continua sendo um dos principais desafios do sistema.
De acordo com o juiz Raphael Mendes Barbosa, crianças maiores de 8 anos, adolescentes e grupos de irmãos enfrentam mais dificuldade para encontrar uma família, embora muitos sejam saudáveis e não apresentem problemas de saúde.
“A realidade não é apenas catarinense, mas nacional. Há pretendentes, mas muitos buscam perfis específicos, geralmente bebês. Já as crianças maiores e adolescentes acabam permanecendo mais tempo nos serviços de acolhimento”, explicou.
Outro obstáculo apontado pelo magistrado envolve crianças e adolescentes com problemas de saúde, que também encontram mais barreiras para adoção.
Legislação incentiva a adoção
Em Santa Catarina, a Lei Estadual nº 17.731/2019, de autoria do deputado estadual Rodrigo Minotto (PDT), instituiu a Semana de Incentivo à Adoção Tardia, realizada anualmente na primeira semana de setembro.
O objetivo é promover debates e conscientizar a sociedade sobre a importância da adoção de crianças acima de 3 anos e adolescentes.
“Sabemos que existem milhares de famílias interessadas em adotar, mas muitas crianças e adolescentes ainda aguardam uma oportunidade. O objetivo é sensibilizar as famílias para ampliar esse olhar”, afirmou o parlamentar.
Programas de apoio fortalecem proteção
Santa Catarina também conta com programas voltados ao fortalecimento da proteção de crianças e adolescentes acolhidos.
Entre eles, está o Programa de Apadrinhamento Afetivo, que possibilita apoio moral, educacional, afetivo e financeiro a crianças que vivem em abrigos. Na Alesc, um projeto de lei de origem parlamentar, o PL 273/2024, de autoria do deputado estadual Mário Motta (PSD), regulamenta o Apadrinhamento Afetivo de Crianças e Adolescentes em situação de acolhimento institucional no Estado.
Outro destaque é o Programa Entrega Legal, desenvolvido pelo TJSC, que orienta e acolhe gestantes interessadas em entregar seus filhos à adoção de maneira assistida, sigilosa e sem criminalização, prevenindo casos de abandono infantil.
A missão de Francisco
Empresário em São José, ativista da causa animal e escritor, Francisco, 49 anos, acredita que a principal missão foi ser pai adotante.
“Entre todas as possibilidades de eu ser pai, a adoção me parecia, eticamente, a decisão mais correta”, relembra. O processo começou em novembro de 2011 e, poucos meses depois, em junho de 2012, chegaram Cristiano e Christine, os dois primeiros filhos.
Anos mais tarde, quando a rotina já estava estabilizada, veio um novo chamado. “Em 2018, a Justiça me convidou a adotar novamente.” Em 2019, a família cresceu com a chegada dos irmãos André, Amayra e Iago.
A decisão de acolher os três irmãos juntos exigiu coragem e renúncia. “Eu não quis separar os três irmãos. Por isso, fiz a opção de abdicar de boa parte da minha vida para que eles pudessem permanecer unidos. E valeu muito a pena.”
Pai solo
Ser pai solo de cinco filhos exige organização, dedicação e sensibilidade para lidar com diferentes personalidades e fases da vida.
“Dá bastante trabalho orquestrar tudo, mas também é muito prazeroso. Eu tento me adaptar a cada momento e respeitar a individualidade de cada um.”
Ao falar sobre os filhos, a emoção toma conta das palavras.
“Eles são a razão mais forte de eu existir. É por eles que eu batalho, corro atrás das coisas e tento ser um bom exemplo.”
Para Francisco, a adoção também representa reconstrução. Em uma das comparações mais marcantes, ele define a trajetória da família como uma árvore atingida por um raio.
“Mesmo com dificuldades, ela continua crescendo, florescendo e sendo linda. Acho que é assim com a nossa família.”
O futuro, segundo ele, é simples e essencial: preservar os laços construídos com amor. “Daqui para frente, quero apenas preservar a família, cuidar muito bem dos meus filhos e regar bem essa história que construímos juntos.”
O olhar sensível sempre foi uma característica de Francisco que também é protetor da causa animal. E essa missão chegou em sua vida a partir de uma de suas filhas adotivas.
Olhar sensível
Em 2018, a filha de Francisco fez quinze anos e surpreendeu a família com um pedido incomum: não queria presente, não queria viagem.
Queria ração — para doar a animais em situação de vulnerabilidade. Francisco acompanhou a filha até um grupo de protetoras independentes, entrou em contato com aquela realidade pela primeira vez e não conseguiu mais sair.
“Comecei como protetor no atacado”, conta Francisco, referindo-se ao modo como passou a apoiar as protetoras de forma estrutural — compras em grande escala, logística, articulação com empresas.
Era o olhar de gestor sendo colocado a serviço da causa animal. E foi dessa maneira, meio que por acaso, que ele fundou em 2020 e preside, hoje, a ONG Proteção Unida de Santa Catarina.
O sonho e a realização de Rubia
A maternidade virou símbolo de renascimento para Rubia. O sonho da maternidade parecia cada vez mais distante quando, em 2014, durante exames realizados após tentativas frustradas de engravidar, veio o diagnóstico que mudou completamente sua vida: câncer de mama.
“Foi um baque muito grande”, relembra.
Vieram então a cirurgia, as sessões de quimioterapia, a radioterapia e um longo processo de recuperação. Mas, mesmo diante da doença e das incertezas, um desejo permaneceu intacto: o de ser mãe.
O desejo
“Eu sempre quis muito ter um filho. Sempre tive esse sonho.”
Como o câncer era hormonal, uma gravidez representava riscos à saúde. Foi então que ela e o marido decidiram transformar o sonho da maternidade e da paternidade por meio da adoção.
“Nós entendemos que aquele era o nosso caminho.”
O casal iniciou todo o processo de habilitação em 2016. Participaram das entrevistas, cursos, avaliações e entraram oficialmente na fila da adoção. A espera, no entanto, foi longa.
“A demora é muito grande, surreal mesmo”, conta.
Foram oito anos até que, em novembro de 2024, veio a ligação tão aguardada: havia uma criança para eles conhecerem.
“Na hora, a gente saiu correndo. Eu ainda estava trabalhando quando recebemos a notícia.”
No fórum, a assistente social perguntou se eles realmente estavam preparados para conhecer a criança. A resposta foi imediata.
“Era isso que nós queríamos. Era o nosso sonho.”
O encontro
O encontro com Miguel aconteceu em um abrigo e marcou definitivamente a vida do casal.
“Foi amor à primeira vista. Tanto para mim quanto para o meu marido.”
Eles conheceram o menino em uma sexta-feira. No sábado, a Justiça autorizou que Miguel passasse o fim de semana com a família. O que seria apenas uma visita temporária acabou se transformando no início de uma nova história.
“No domingo, já autorizaram que ele permanecesse conosco até a audiência.”
A realização
Poucos dias depois, veio a guarda provisória e, mais tarde, a definitiva. Assim, Miguel passou a integrar oficialmente a família — embora, emocionalmente, já fosse filho desde o primeiro encontro.
“Ele foi muito esperado, muito desejado por nós dois.”
Ela define o filho como uma bênção.
Foto: Acervo pessoal
“O Miguel é uma criança maravilhosa, carinhosa, cheia de amor. Ele transformou completamente a nossa vida”, confessa emocionada.
Miguel fez dois anos no dia 20 de maio. “Quando ele chegou tinha cinco meses e hoje faz dois anos de muito amor e benção”, contou.
Para o casal, o menino é o símbolo do amor. “Ele é tudo para nós”.
A demora
Ela destaca que o processo de adoção é longo e desgastante. “A espera é muito grande. A adoção é um processo bastante demorado”, afirma.
Segundo ela, inicialmente o perfil desejado era de crianças com até dois anos de idade, mas a família decidiu ampliar essa faixa etária. “Ampliamos o perfil e colocamos até quatro anos”, conta, ao lembrar da grande quantidade de crianças que aguardam por adoção em abrigos.
“Há muitas crianças que precisam de amor, carinho e de uma família. É uma pena que esse processo seja tão demorado”, lamenta.
Ao falar sobre a experiência vivida com Miguel, ela demonstra esperança para outras crianças que ainda aguardam um lar. “Tomara que elas tenham a mesma sorte que o Miguel teve. Todos merecem encontrar uma família que os ame”, conclui.
ALESC EXPLICA
Pessoas maiores de 18 anos, desde que tenham diferença mínima de 16 anos em relação à criança ou adolescente.
É a adoção de crianças maiores, adolescentes ou grupos de irmãos.
É um programa que permite apoio moral, educacional, afetivo e financeiro a crianças em acolhimento institucional.

