Comunicação

Seminário Estadual de Autismo reúne especialistas e reforça compromisso do Parlamento com a inclusão escolar


Evento reúne profissionais para discutir estratégias pedagógicas, neurociência e práticas baseadas em evidências para garantir a inclusão e o desenvolvimento de estudantes com TEA.

Valquíria Guimarães
12/08/2026 - 11h47min

Seminário Estadual de Autismo.

Seminário Estadual de Autismo.

Foto: Rodrigo Corrêa / Agência Alesc

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Santa Catarina possui cerca de 91,6 mil pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a 1,2% da população do Estado. Desse total, 62,6% são do sexo masculino, com forte concentração em municípios como Joinville e Florianópolis.

O Estado também conta com legislação específica de apoio às pessoas com autismo, além da emissão gratuita da carteira de identificação e de programas voltados à inclusão.

Os dados da Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE) ajudam a dimensionar a importância do Seminário Estadual de Autismo, realizado nesta quarta-feira (12), no Auditório Deputada Antonieta de Barros, no Palácio Barriga Verde, em Florianópolis.

A iniciativa é coordenada pela Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência e pela Escola do Legislativo Deputado Lício Mauro da Silveira da Alesc e tem como objetivo capacitar profissionais da educação e fortalecer as políticas de inclusão escolar para estudantes com TEA.

Autismo em Santa Catarina

Dados ajudam a dimensionar o cenário do TEA no Estado

91,6 mil pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA)
1,2% da população de Santa Catarina
62,6% das pessoas diagnosticadas são do sexo masculino
Forte concentração em municípios como Joinville e Florianópolis.
Santa Catarina conta com legislação específica de apoio às pessoas com autismo.
Emissão gratuita da carteira de identificação e programas voltados à inclusão.

Fonte: Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE)

Ao longo do dia, especialistas compartilham conhecimentos, experiências e estratégias relacionadas a um dos grandes desafios da educação contemporânea: transformar o direito à inclusão em práticas efetivas dentro da sala de aula.

A proposta é ampliar o conhecimento dos profissionais sobre as características do autismo e oferecer ferramentas que contribuam para a aprendizagem, a autonomia e o desenvolvimento integral dos estudantes da educação básica.

O evento também aproxima conhecimento científico, experiência profissional e realidade das famílias, reforçando a importância da formação continuada dos educadores.

Atendimento às pessoas com autismo ainda enfrenta filas

Presidente da Federação das Associações de Amigos do Autista de Santa Catarina (Feamas-SC), Catia Cristiane Purnhagen Franzoi destacou a importância do seminário para a disseminação de informações e para o fortalecimento do atendimento às pessoas com autismo.

Segundo ela, a capacitação dos profissionais pode contribuir diretamente para melhorar o trabalho desenvolvido nas instituições e, consequentemente, o desenvolvimento de crianças, adolescentes e adultos com TEA.

“Nós precisamos cada vez mais levar a informação e, com isso, conseguir desenvolver um trabalho consistente para o desenvolvimento das crianças, jovens e adultos com autismo.”

Catia também ressaltou a qualidade dos especialistas convidados e a possibilidade de transformar o conhecimento apresentado durante o seminário em práticas aplicáveis no cotidiano das instituições e das salas de aula.

Entre os principais desafios enfrentados atualmente em Santa Catarina, a presidente da Feamas-SC aponta a necessidade de ampliar a oferta de atendimento e reduzir as extensas filas de espera.

Participante durante o Seminário Estadual de Autismo na Assembleia Legislativa de Santa Catarina
Foto: Rodrigo Corrêa/Agência Alesc
“Nós precisamos buscar com que o poder público e as empresas façam um incentivo ainda maior para que a gente consiga, o quanto antes, absorver essas crianças para o atendimento clínico, que é o que vai fazer total diferença na vida dessa pessoa e dessa família.”

A dimensão do problema aparece nos números apresentados por Catia. Em Balneário Camboriú, onde atua, são aproximadamente 500 crianças aguardando atendimento.

Em Itajaí, segundo informações repassadas à entidade, a fila chega a cerca de 1,2 mil crianças. Além das filas por atendimento, há também famílias aguardando pelo diagnóstico de autismo.

A presidente da Feamas-SC informou ainda que a federação possui aproximadamente 32 Associações de Amigos do Autista (AMAs) cadastradas, enquanto outras cerca de 30 entidades, recém-criadas, recebem suporte para buscar o credenciamento e integrar a rede.

Inclusão exige estratégias individualizadas

A atual presidente da AMA Florianópolis (Associação de Pais e Amigos do Autista de Florianópolis), Daniela Dias Steindorff, reforça a avaliação de Catia sobre a importância de ampliar o conhecimento e qualificar o atendimento às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Mãe atípica e há anos atuante na defesa dos direitos, da inclusão e da acessibilidade da população autista na Capital, Daniela destaca que a experiência cotidiana com pessoas autistas mostra que não existem soluções padronizadas para o autismo.

Participante fala ao púlpito durante o Seminário Estadual sobre Autismo na Assembleia Legislativa de Santa Catarina
Foto: Rodrigo Corrêa/Agência Alesc
“Não há fórmula pronta para tratar o autismo. Na AMA, convivemos com essa realidade há três décadas, e nenhuma pessoa autista cabe em uma fórmula pronta.”

Para Daniela, justamente por exigir um olhar individualizado, o conhecimento precisa ultrapassar a teoria e chegar ao cotidiano das famílias e das escolas.

“É preciso chegar à vida real e à sala de aula. Exatamente por isso que esse seminário importa.”

A presidente da AMA Florianópolis ressalta, assim, que a formação de profissionais e a troca de experiências são fundamentais para que a inclusão aconteça de maneira efetiva.

Mais do que discutir conceitos sobre o autismo, é preciso transformar conhecimento em práticas capazes de responder às necessidades de cada pessoa.

A participação de Daniela no seminário também representa a voz das famílias que, há décadas, acompanham de perto os desafios da inclusão e da garantia de direitos.

Sua experiência à frente da AMA Florianópolis reforça a importância de aproximar famílias, profissionais, instituições e poder público, para que as políticas de inclusão sejam construídas a partir das diferentes realidades vivenciadas pelas pessoas autistas.

Neurociência e aprendizagem individualizada

A palestra “A Arquitetura do Aprendizado: Autismo, Neurociência e DUA”, ministrada pelo professor e especialista em autismo Eugênio Cunha, abriu a agenda de trabalho do evento.

O professor abordou a aprendizagem de crianças e adolescentes com TEA no ambiente escolar.

Segundo o especialista, a proposta é aproximar conhecimentos contemporâneos da neurociência das práticas pedagógicas, utilizando também os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA).

Participante durante o Seminário Estadual de Autismo na Assembleia Legislativa de Santa Catarina
Foto: Rodrigo Corrêa/Agência Alesc
“A neurociência traz uma abordagem diferenciada da aprendizagem do ser humano. E o DUA, que é o Desenho Universal para a Aprendizagem, propõe uma acessibilidade metodológica em sala de aula e uma acessibilidade curricular.”

Para Eugênio, um dos pontos centrais da inclusão é compreender que não existe uma única forma de aprender. No caso do autismo, essa individualização precisa ser ainda mais considerada.

“Cada criança autista é uma criança autista. Cada adolescente autista é um adolescente autista. A gente tem que primar pela possibilidade de criar estratégias diferenciadas.”

O desafio, segundo ele, está justamente em personalizar o processo de aprendizagem em um ambiente escolar marcado pela diversidade.

Participante durante o Seminário Estadual de Autismo na Assembleia Legislativa de Santa Catarina
Foto: Rodrigo Corrêa/Agência Alesc
“Você trabalha num universo de diversidade, com várias crianças e adolescentes, alunos com formas de aprender diferenciadas. Como é que você faz isso? Personalizar a aprendizagem de cada um. É essa estratégia que nós queremos propor aqui.”

A perspectiva das famílias sobre a inclusão

A experiência das famílias também ocupa espaço central no seminário. Alessandra Couto Vieira, mãe de Tiago, de 18 anos, autista, participou do evento destacando a importância de transformar o conhecimento adquirido pelos profissionais em ações concretas dentro das famílias e das instituições.

Além de mãe, Alessandra atua como coordenadora da AMA Navegantes, acompanhando de perto as demandas de profissionais e famílias.

Participante durante o Seminário Estadual de Autismo na Assembleia Legislativa de Santa Catarina
Foto: Rodrigo Corrêa/Agência Alesc
“É aqui que muitas das dúvidas que a gente tem, enquanto mãe e enquanto profissional da educação, conseguimos trazer para nossas equipes multiprofissionais e levar para dentro da nossa casa um pouquinho sobre autismo e sobre como lidar com cada dificuldade que nos é apresentada no dia a dia.”

Para ela, os conhecimentos compartilhados pelos especialistas podem ser incorporados ao trabalho desenvolvido nas instituições.

“Todas essas estratégias a gente traz para a nossa AMA, para que a gente possa realmente fazer um bom trabalho.”

01

Transformação

Alessandra também compartilhou aspectos da trajetória de Tiago, que apresenta dificuldades importantes de fala e deficiência intelectual associada. Para ela, a experiência com o filho também representa um processo permanente de aprendizado e transformação pessoal.

“Ele acabou sendo o meu bote salva-vidas, porque a gente vai crescendo, tanto como mãe como indivíduo, dentro de uma sociedade, e enxergando que existem muitas pessoas também assim como nós, que querem aprender, que querem evoluir e trazer um futuro diferente para o seu filho.”
02

Inclusão

Na avaliação da mãe, o Brasil já avançou na discussão sobre inclusão, embora ainda existam muitos desafios.

“Hoje a gente já vê um cenário muito diferente quanto à inclusão. Saímos de uma roupagem muito diferente e, cada vez mais, quanto mais nós conseguimos conscientizar, com certeza vai mudar muita coisa da vivência que nós temos hoje.”
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Futuro

Para Alessandra, o processo ainda ocorre gradualmente, mas as mudanças iniciadas agora podem produzir resultados importantes no futuro.

“Hoje se fala muito sobre inclusão e se pratica muito, ainda em pequenos passos, mas com certeza serão valiosos já no futuro. São sementinhas plantadas agora para que a gente possa colher.”

Conhecimento científico aliado à prática pedagógica

A programação do seminário reúne especialistas para abordar diferentes dimensões da aprendizagem e da inclusão de estudantes autistas.

Entre os temas estão neurociência, Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), estratégias baseadas em evidências, comunicação, habilidades motoras, processamento sensorial e autorregulação.

No período da tarde, Claudia Sabatini apresentou duas palestras. A primeira, “Dos Preditores ao Desempenho Escolar: Estratégias Baseadas em Evidências para o Aluno Autista”, aborda ferramentas que podem auxiliar no acompanhamento e no desenvolvimento escolar.

Na sequência, ela apresenta “Neurociência da Aprendizagem e Práticas e Recursos Pedagógicos para Inclusão do Aluno com Autismo: Da Teoria à Sala de Aula”, aproximando os conhecimentos científicos das estratégias utilizadas no cotidiano escolar.

Inclusão para além da sala de aula

A programação também contempla aspectos que ultrapassam o conteúdo pedagógico. O especialista Fernando Calil apresenta as palestras “Da Regulação à Aprendizagem: O Papel da Comunicação, das Habilidades Motoras e do Processamento Sensorial na Inclusão Escolar” e “Neurociência da Autorregulação: Como Compreender o Corpo para Prevenir e Manejar Crises”.

Os temas reforçam a necessidade de compreender o estudante de forma integral, considerando suas diferentes formas de comunicação, interação, percepção e resposta aos estímulos do ambiente escolar.

Encerrando a programação, Sabrina Padilha apresenta “Em Nome do Filho: A Jornada da Maternidade Atípica”. A abordagem coloca no centro do debate a perspectiva das famílias, especialmente das mães que vivenciam diariamente os desafios relacionados ao diagnóstico, à educação e à garantia dos direitos dos filhos.

Parlamento fortalece debate sobre inclusão e políticas públicas

Ao reunir profissionais da educação, especialistas e representantes da sociedade para discutir o autismo, o Seminário Estadual amplia a compreensão sobre os desafios enfrentados pelas pessoas com TEA e suas famílias.

Mais do que um espaço de capacitação, o evento fortalece o diálogo entre ciência, educação, famílias e poder público, contribuindo para a construção de uma sociedade mais inclusiva.

A realização do seminário pelo Parlamento catarinense reforça, ainda, o papel da instituição como espaço de debate de temas que impactam diretamente a vida da população e de estímulo à formulação e ao aprimoramento de políticas públicas.

No caso do autismo, a discussão sobre inclusão escolar é especialmente relevante. Garantir acesso à escola não significa apenas assegurar matrícula, mas criar condições para que cada estudante possa aprender, participar e desenvolver seu potencial, respeitando suas características e necessidades individuais.

Direitos e políticas de apoio às pessoas com autismo

Entre as medidas de apoio às pessoas com TEA em Santa Catarina está a Carteira de Identificação do Autista, emitida gratuitamente pela Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE) e destinada a garantir atendimento prioritário em serviços públicos e privados.

O Estado também possui leis e iniciativas voltadas à garantia de atendimento especializado e à proteção dos direitos das pessoas com autismo, reforçando a necessidade de articulação permanente entre poder público, instituições especializadas, profissionais, famílias e sociedade.


ALESC EXPLICA

O que é o Transtorno do Espectro Autista?

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) aparece na matéria como uma condição que demanda estratégias individualizadas de aprendizagem, atendimento e inclusão, considerando as diferentes características e necessidades de cada pessoa.

Quantas pessoas têm diagnóstico de autismo em Santa Catarina?

Conforme os dados da Fundação Catarinense de Educação Especial apresentados na matéria, Santa Catarina possui cerca de 91,6 mil pessoas com diagnóstico de TEA, o equivalente a 1,2% da população estadual.

Qual é o objetivo do Seminário Estadual de Autismo?

Capacitar profissionais da educação e fortalecer as políticas de inclusão escolar, aproximando conhecimento científico, experiências profissionais e a realidade vivenciada pelas famílias.

O que é o DUA?

O Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) é apresentado no seminário como uma abordagem voltada à acessibilidade metodológica e curricular, considerando diferentes formas de aprendizagem dos estudantes.

Como funciona a Carteira de Identificação do Autista em Santa Catarina?

Conforme a matéria, a carteira é emitida gratuitamente pela Fundação Catarinense de Educação Especial e tem como finalidade garantir atendimento prioritário em serviços públicos e privados.

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