Comunicação

Das intermináveis horas de apuração ao bip da confirmação: a revolução da urna eletrônica completa 30 anos


Reportagem relembra a evolução da urna eletrônica, destaca o protagonismo de Santa Catarina e os desafios para as eleições de 2026.

Simone Sartori
01/06/2026 - 11h20min

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Revolução tecnológica na política brasileira

O som é rápido. Quase automático. Um número digitado, a foto na tela, o dedo apertando a tecla verde e, então, o tradicional “bip” que atravessa gerações de brasileiros.

Hoje, o gesto dura poucos segundos. Mas por trás dele existe uma revolução tecnológica, política e democrática construída ao longo de décadas e que tem em Santa Catarina um capítulo decisivo dessa história.

Há 30 anos, o Brasil dava início a uma das maiores transformações do processo eleitoral mundial com a implantação da urna eletrônica.

O sistema nasceu para combater fraudes, reduzir erros humanos e acelerar a apuração dos votos. Mais do que isso: mudou a relação do eleitor brasileiro com a democracia.

E antes mesmo da estreia oficial da urna eletrônica em 1996, Santa Catarina já experimentava caminhos que ajudariam a moldar o futuro das eleições no país.

Santa Catarina na origem da informatização do voto

Gonsalo André Ribeiro Agostini, diretor-geral do TRE-SC

Foto: Daniel Conzi/Agência Alesc

“Quando a gente fala em informatização do voto, isso em Santa Catarina já era pensado desde 1957”, relembra o diretor-geral do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC), Gonsalo André Ribeiro Agostini.

Segundo ele, um dos primeiros registros históricos do tema ocorreu ainda nos anos 1950, quando o catarinense João Pedro Gi apresentou ao TRE-SC uma máquina de votar mecânica, iniciativa considerada pioneira para a época.

A era das cédulas, dos ginásios lotados e das apurações intermináveis

Antes da urna eletrônica, votar era uma experiência completamente diferente. As eleições aconteciam com cédulas de papel, urnas de madeira, metal ou lona e uma apuração que podia durar dias.

Em muitos municípios brasileiros, ginásios esportivos se transformavam em verdadeiros centros de contagem manual de votos.

Mesários, fiscais de partidos, escrutinadores e servidores trabalhavam madrugada adentro em meio a pilhas de cédulas, conferências manuais e discussões sobre votos anulados ou interpretados de formas diferentes.

“Você pegava uma urna cheia de cédulas e quatro pessoas precisavam contar tudo manualmente. Tinha voto em branco, voto nulo, interpretação de nome escrito errado. Era um processo extremamente complexo”, lembra Gonsalo.

As falhas humanas e as fraudes eleitorais eram recorrentes ao longo da história brasileira. O sistema manual permitia desde erros involuntários até manipulações durante a apuração.

Foi justamente para enfrentar esse cenário que a Justiça Eleitoral começou a investir na informatização do processo eleitoral.

Santa Catarina e os primeiros testes eletrônicos do Brasil

Muito antes da primeira eleição oficial com urnas eletrônicas, Santa Catarina já realizava experiências inéditas com votação informatizada.

Em 1991, o então distrito de Cocal do Sul participou de um plebiscito eletrônico para decidir sua emancipação de Urussanga. Não houve cédulas de papel. Tudo foi feito eletronicamente.

Gonsalo André Ribeiro Agostini, diretor-geral do TRE-SC

Foto: Daniel Conzi/Agência Alesc

“Foi a primeira vez em que tivemos captação e totalização de votos sem uso de papel. Um instituto internacional que acompanhou o processo afirmou que provavelmente era a primeira experiência desse tipo na América Latina”, destaca Gonsalo.

A experiência abriu caminho para uma sequência de testes realizados pelo TRE catarinense em plebiscitos e consultas populares.

Entre 1991 e 1995, Santa Catarina promoveu mais de 300 eventos eletrônicos no país utilizando sistemas desenvolvidos pela própria Justiça Eleitoral catarinense.

O avanço chamou a atenção do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Brusque: a cidade catarinense que entrou para a história da urna eletrônica

Em 1996, o Brasil realizou sua primeira eleição oficial com urnas eletrônicas. Mais de 32 milhões de brasileiros votaram eletronicamente em 57 cidades do país.

A regra previa participação apenas de municípios com mais de 200 mil eleitores. Mas houve uma exceção: Brusque.

A cidade catarinense, com eleitorado inferior ao exigido, foi incluída no projeto como reconhecimento ao protagonismo de Santa Catarina no desenvolvimento da informatização eleitoral.

Gonsalo André Ribeiro Agostini, diretor-geral do TRE-SC

Foto: Daniel Conzi/Agência Alesc

“Brusque participou como uma deferência a Santa Catarina pela contribuição histórica ao processo eletrônico”, afirma Gonsalo.

No estado, apenas Florianópolis, Joinville e Brusque utilizaram a novidade naquela eleição.

A escolha também carregava simbolismo: o desembargador Carlos Prudêncio, um dos principais incentivadores da informatização eleitoral no país, teve atuação marcante no processo iniciado em Santa Catarina.

“Ele não criou a urna eletrônica sozinho, mas foi um dos grandes incentivadores da utilização da informática no processo eleitoral”, explica o diretor-geral do TRE-SC.

A urna eletrônica nasce oficialmente

O projeto nacional da urna começou a ganhar forma em 1995, quando o TSE reuniu especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), das Forças Armadas e de centros tecnológicos brasileiros para desenvolver uma solução própria para o país.

A proposta era ousada:

• eliminar a intervenção humana na apuração; • garantir mais segurança; • facilitar o voto; • acelerar os resultados.

O modelo brasileiro combinou teclado numérico, tela e processador em um único equipamento, algo inovador para a época.

O teclado semelhante ao de um telefone foi pensado para ampliar a acessibilidade. “Foi uma solução criada para a realidade brasileira. Não foi importada. Ela foi desenvolvida exatamente para atender às nossas necessidades”, destaca Gonsalo.

Da desconfiança ao símbolo da democracia brasileira

Nos primeiros anos, houve receio por parte da população. Muitos eleitores temiam apertar o botão errado; perder o voto; não confiar totalmente na tecnologia.

Mas a adaptação foi rápida. “Independentemente do grau de instrução, todo mundo passou a votar da mesma forma. O número oito que você digita é igual para qualquer pessoa”, afirma Gonsalo.

Segundo ele, um dos primeiros impactos percebidos foi a redução drástica dos votos anulados por erro de interpretação.

Com a urna, acabou a leitura subjetiva das cédulas “Antes alguém interpretava o que estava escrito. Agora não existe mais interpretação humana no voto.”

Segurança, auditoria e evolução tecnológica

Ao longo de três décadas, a urna eletrônica passou por uma evolução constante.

Hoje, o sistema conta com:

• criptografia avançada; • assinaturas digitais; • auditorias públicas; • testes de integridade; • biometria; • recursos de acessibilidade; • múltiplas barreiras de segurança.

Além disso, as urnas não utilizam internet durante a votação.

“Nunca se comprovou fraude na urna eletrônica. E isso acontece porque existe uma cadeia muito rigorosa de segurança, auditoria e verificação”, afirma Gonsalo.

Santa Catarina atualmente possui cerca de 23 mil urnas armazenadas e submetidas continuamente a ciclos de testes técnicos.

“Cada urna passa por testes exaustivos durante o período entre as eleições. É praticamente uma indústria de validação”, explica.

O processo inclui auditorias públicas realizadas durante a própria eleição.

Em Santa Catarina, urnas sorteadas são levadas para auditoria paralela na Assembleia Legislativa, onde votos em papel são digitados simultaneamente nas urnas para comprovação da fidelidade do sistema.

A biometria e a modernização do eleitorado

Outro avanço importante foi a identificação biométrica.

Santa Catarina possui atualmente cerca de 91% do eleitorado cadastrado biometricamente.

O sistema trouxe mais rapidez e segurança para a identificação dos eleitores.

“A biometria otimizou muito o processo. Hoje o eleitor coloca o dedo, é identificado e já pode votar”, explica Gonsalo.

Além disso, novas ferramentas digitais passaram a facilitar o acesso do eleitor, como o uso do CPF para identificação e aplicativos que permitem acompanhar resultados em tempo real.

A logística da maior eleição informatizada do mundo

Nas eleições municipais de 2024, mais de 153 milhões de brasileiros votaram utilizando mais de 570 mil urnas eletrônicas distribuídas em 5.569 municípios.

O Brasil consolidou-se como o país com a maior eleição informatizada do planeta. Por trás da rapidez dos resultados existe uma operação gigantesca.

“Uma eleição começa a ser preparada assim que a anterior termina. São mais de 32 mil atividades de planejamento”, conta Gonsalo.

Cada urna recebe configuração específica da seção eleitoral onde será utilizada. Ao final da votação, o resultado é emitido automaticamente e pode ser conferido publicamente por meio do Boletim de Urna.

“Antes mesmo de a Justiça Eleitoral consolidar o resultado, ele já está disponível para qualquer cidadão consultar”, destaca.

Segurança, auditoria e evolução tecnológica

Entenda os pilares e a cadeia blindada de segurança do voto eletrônico.

01

Segurança do sistema

Proteção digital e identificação rigorosa isolam a urna de ameaças externas

02

Testes de validação

Fiscalização ativa e checagem prática validam a transparência das urnas

03

Barreiras de segurança

Camadas de defesa interligadas garantem a rastreabilidade de ponta a ponta

04

Evolução Tecnológica

Inovação em acessibilidade e pioneirismo regional guiam o futuro do voto

Segurança do sistema

A segurança do processo eleitoral é garantida por camadas tecnológicas operadas antes e durante as eleições. O sistema atual conta com criptografia avançada, assinaturas digitais e o uso consolidado da biometria para identificação do eleitorado, mitigando riscos e assegurando que o voto digitado seja computado.

O núcleo de proteção baseia-se na blindagem dos dispositivos, onde a criptografia avançada impede interceptações de dados e as assinaturas digitais validam a autenticidade dos softwares. Na ponta do processo, a biometria garante a verificação unívoca de cada cidadão, tornando o equipamento imune a redes externas.

Santa Catarina na vanguarda

Três décadas depois da estreia da urna eletrônica, Santa Catarina segue ocupando posição de destaque no processo eleitoral brasileiro.

Além dos testes pioneiros e da participação histórica de Brusque, o estado mantém tradição de inovação tecnológica na Justiça Eleitoral.

“Santa Catarina sempre esteve na vanguarda das ideias relacionadas ao processo eleitoral”, resume Gonsalo.

Linha do Tempo
30 Anos da Urna Eletrônica

Navegue pelos marcos históricos mais importantes da urna eletrônica.

SC
1957 João Pedro Gi apresenta ao TRE-SC uma máquina de votar mecânica pioneira.
SC
1991 Cocal do Sul realiza votação eletrônica sem uso de papel.
1995 TSE inicia oficialmente o projeto nacional da urna eletrônica.
1996 Primeira eleição oficial com urna eletrônica no Brasil.
SC
1996 Brusque participa como exceção nacional em reconhecimento histórico a Santa Catarina.
2000 Todo o Brasil passa a votar eletronicamente.
2008 Início da introdução da biometria no processo de votação.
2022 Nova geração de urnas eletrônicas amplia segurança e acessibilidade.
2026 Urna eletrônica celebra 30 anos consolidada como pilar da democracia.

Eleições 2026: novas urnas, novos desafios

Com a aproximação das eleições de 2026, a Justiça Eleitoral já trabalha nos preparativos para mais um grande processo eleitoral informatizado.

Além da manutenção e auditoria das urnas, o TRE-SC também desenvolve campanhas de orientação aos eleitores sobre a ordem de votação e o uso correto do sistema.

A expectativa é que o pleito siga incorporando melhorias tecnológicas, sem abrir mão dos pilares construídos ao longo das últimas três décadas: segurança, transparência, acessibilidade e agilidade.

“Hoje a urna é muito mais do que um equipamento. Ela virou parte da própria história da democracia brasileira”, conclui Gonsalo


ALESC EXPLICA

O que é a urna eletrônica?

É o equipamento utilizado pela Justiça Eleitoral brasileira para registrar e apurar os votos dos eleitores de forma eletrônica.

Quando a urna eletrônica passou a ser utilizada no Brasil?

A primeira eleição oficial com urnas eletrônicas ocorreu em 1996.

Qual foi a participação de Santa Catarina nessa história?

O estado realizou experiências pioneiras de votação informatizada antes mesmo da implantação oficial da urna eletrônica no país.

As urnas eletrônicas utilizam internet durante a votação?

Não. As urnas funcionam sem conexão com a internet durante todo o processo de votação.

O que é o Boletim de Urna?

É o relatório emitido ao final da votação em cada seção eleitoral, contendo o resultado daquela urna e permitindo conferência pública dos votos registrados.

Por que a biometria foi incorporada ao sistema eleitoral?

Para aumentar a segurança na identificação dos eleitores e reduzir riscos de fraude na habilitação para votação.

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