Muito além do idioma e a gastronomia, a cultura italiana nos municípios do Vale do Itajaí vem sendo fomentada por meio de outras ações. Entre elas, está a música. Depois de décadas de inatividade, conjuntos como o Coro da Comunidade dos Imigrantes Trentinos do Alto Vale do Itajaí, o Citavi, vêm ganhando impulso.
A formação do grupo aconteceu no ano de 2001, por meio de um convênio de irmandade (gemellaggio) com a Província Autônoma de Trento. Integrantes da Associação Trentini Nel Mondo e do Coro Val Bronzale, da Itália, vieram a Rio do Oeste para prestar assessoria. Componentes do Citavi, por sua vez, também foram à Itália em busca de especialização, conforme conta o maestro Allan Girardi Rossa.
“Nestas duas vezes que estivemos lá, nos sentimos em casa e fomos tratados como família. Nós estamos preservando a nossa cultura, dos nossos antepassados, e os italianos veem isso como algo positivo, porque lá também há dificuldades em fazer isso. Então, eles veem que no Brasil, tão distante de lá, essa cultura deles está sendo preservada.”
Particularmente, o Citavi promove uma antiga tradição da região trentina, o coro alpino, que tem como características mais evidentes ser formado exclusivamente por vozes masculinas e atuar à capela. A tradição surgiu entre os montanhistas e soldados das muitas guerras em que a região dos alpes italianos esteve envolvida ao longo dos séculos. O canto era utilizado nos momentos de folga para extravasar as tensões.
Conforme o presidente da entidade, Fiorelo Zanella, esta herança também chegou ao Alto Vale do Itajaí por meio dos pioneiros trentinos. “A música sempre esteve presente em todas as famílias aqui da região. Cada comunidade nossa aqui tinha dois, três, quatro coros, não só folclóricos, mas também de igreja, que eram muito comuns. E hoje se mantém ainda alguns coros folclóricos da nossa região, assim como o nosso coro de Citavi.”
Com 26 coristas, o grupo conta com integrantes de Rio do Oeste, mas também dos municípios de Laurentino, Rio do Sul e Taió. O Citavi tem o repertório composto por canções italianas, do folclore dos Alpes, principalmente da região de Trento. Muitas destas canções são entoadas desde a época da colonização até os dias de hoje.
“É muito importante conseguirmos manter o coro ativo, porque através dele a gente consegue ter uma conexão mais profunda com os italianos, com os trentinos, preservando a cultura dos nossos antepassados”, explica.
Desde sua fundação, o coro já se apresentou em dezenas de cidades de Santa Catarina e outros estados brasileiros, além de estar duas vezes na Argentina. No ano de 2013 também esteve na Itália, para a apresentação em uma missa na Basílica de São Pedro, na Cidade do Vaticano.
Vinho
Outro resgate cultural promovido na região foi o da vinicultura. Em seus primeiros anos em solo brasileiro, os imigrantes já produziam algum vinho a partir das mudas trazidas da Itália, sobretudo para consumo das próprias famílias. No Alto Vale do Itajaí esta tradição ainda é mantida e nos últimos anos vem até mesmo se sofisticando.
Em Rodeio, por exemplo, Sionei Furlani conta que ele e o sócio, Marcelo Sardagna, foram no ano de 2000 para o Instituto Agrário de San Michelle em Trento, na Itália, para trazer para Santa Catarina o segredo dos melhores vinhos italianos. De lá também trouxeram o método champenoise, que é a refermentação na própria garrafa, e hoje produzem um dos espumantes mais sofisticados do Brasil, vencedor de diversas premiações na Bélgica.
“Há 25 anos começamos essa linha e então entramos nas variedades italianas, como Nebbiolo, Sangiovese, e Montepulciano. Já o Teroldego, que é a principal uva da região de Trento, nóslançamos em 2007.”
Ele conta que da região de Trento também foi buscada inspiração para outra iniciativa, o associativismo.“Hoje nós temos o Cimvi, que é o Consórcio Intermunicipal do Médio Vale do Itajaí, em que nos unimos a nove municípios vizinhos para fomentar o turismo. Dele também foi criado o cicloturismo do Vale Europeu, o primeiro consórcio de turismo do Brasil, por meio do qual procuramos oferecer ao visitante diversos atrativos, como o esporte a gastronomia e também toda a cultura do vinho.”
Para Marcelo Sardagna, a iniciativa vem se tornando um exemplo de sucesso para toda a região. “Hoje essas pequenas produções geram para o agricultor uma renda em uma a área menor. E não é preciso ser um mega fazendeiro para obter bons resultados. Eu vejo aqui na região vários pequenos produtores que, eu não digo que enriqueceram, mas que conseguiram formar os filhos e tudo mais, por meio da viticultura.”