Os impactos na economia e a falta de dados na saúde


18/06/2025 - 17h44min

Os brasileiros são bombardeados por propagandas de cassinos e apostas em praticamente todos os meios de comunicação, desde influencers até camisetas de clubes de futebol.

Os poucos números oficiais existentes sobre uma atividade ainda tão recente já trazem uma estimativa do tamanho do estrago social e econômico. O investimento apenas das bets em publicidade no Brasil chegou a R$ 6 bilhões em 2024. E a receita global de jogos de azar chegará a US$ 700 bilhões até 2028, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

De acordo com pesquisa realizada pela XP Investimentos, os gastos dos brasileiros em jogos de apostas on-line no ano de 2024 variou entre R$ 90 bilhões e R$ 130 bilhões, sendo que, desde 2018, a participação destas apostas no orçamento familiar triplicou. O impacto foi cinco vezes maior nas classes D e E.

A Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, constatou que 63% da população teve sua renda comprometida com jogos de apostas. Já um relatório do Banco Central do Brasil (BCB) demonstrou que 5 milhões de beneficiários do programa Bolsa Família utilizaram R$ 3 bilhões em jogos de apostas.

Com dívidas, o brasileiro deixou de comprar. O varejo deixou de faturar de R$ 103 bilhões ao longo do ano de 2024 em decorrência do redirecionamento dos recursos das famílias para as plataformas virtuais de apostas esportivas e de cassino online. É o que indicou estudo divulgado em janeiro pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Por fim, o Banco Itaú realizou levantamento em 2024 e estimou que, no balanço entre vitórias e derrotas, houve perdas de R$ 23,9 bilhões.

Todos os dados integram extenso relatório formulado pela da Unidade de Auditoria Especializada em Saúde (AudSaúde) do Tribunal de Contas da União (TCU) e divulgado no último dia 28 de maio.

Saúde sem dados
O objetivo do documento do TCU é buscar uma saída para uma questão que parece ser ainda mais nebulosa e sem nenhuma estimativa oficial: qual o impacto das apostas na saúde dos brasileiros?

E é justamente nesse ponto que as histórias de Luan e Cláudia se cruzam novamente. Enquanto a aposentada não conseguiu atendimento psicológico no posto de saúde e recorreu à clínicas particulares, o motoboy sequer sabia que precisava buscar ajuda.

Nenhum dos dois sabia que a compulsão por jogos é, na realidade, uma doença que tem inclusive um nome: ludopatia. 

Os dois fazem parte do universo de 1,4% da população envolvida em jogos de azar problemáticos. E por problemáticos entende-se aqueles que registram perdas substanciais do patrimônio. A falta de informações e dados estatísticos sobre o número de pessoas que buscam atendimento na rede de saúde, aliada à vergonha pelo vício, transforma o problema em algo mais difícil de ser enfrentado.

“Além de não haver estruturação consistente para informar a população quanto ao risco de vício em jogos de aposta on-line, o que pode ampliar o número de pessoas afetadas, a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) dispõe de recursos muito limitados e não possui protocolos padronizados para realizar o manejo clínico desses pacientes, embora projeções epidemiológicas de jogo problemático indiquem demanda latente, que pode crescer rapidamente”, afirma o ministro do TCU, Jhonatan de Jesus, em seu relatório.

“Destacam-se, ainda, a ausência de indicadores claros sobre o número de pessoas atendidas no SUS e a carência de campanhas educativas e mecanismos de bloqueio ou restrição ao público infantojuvenil; a massiva publicidade das apostas, aliada à falta de alertas proporcionais quanto aos riscos de dependência, contribui para que cresça o contingente de pessoas expostas ao jogo problemático”, completa o ministro.

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