Os dramas de Cláudia e Luan, duas vítimas da ludopatia


18/06/2025 - 17h38min

“Ensinei tanta coisa boa aos meus filhos, cobrei tanta responsabilidade. Foi uma luta tão grande para educá-los e, no fim da minha vida, não me sobrou mais nada”.

A professora aposentada Cláudia (*), de 71 anos, lamenta as decisões tomadas nos últimos anos e diz sentir uma  “sensação de vergonha e fracasso”. Ela começou a jogar para se distrair e afastar a solidão após a morte do marido, em 2022. A brincadeira começou com pequenos valores nos jogos on-line, incluindo o famoso Tigrinho. Pouco depois, o que era uma distração tomava todo o seu tempo.

O primeiro alerta veio quando todo o valor da aposentadoria foi para pagar o cheque especial e cartões de crédito. “Não me sobrou praticamente nada para comprar os meus remédios. Mas não me preocupei, era só ligar para meu gerente e fazer um empréstimo. Depois comecei a fazer consignados”, lamentou.

Cláudia vendeu o carro deixado pelo marido, pagou parte dos empréstimos e apostou tudo de novo. A alegria durou pouco. “Perdi tudo em menos de duas semanas”, revela. “Juro que pensei em vender, me reorganizar e parar. Mas queria aquela sensação de vitória que o jogo traz”.

Coube à nora de Cláudia, uma profissional de saúde, perceber que havia algo errado. Mesmo assim, somente depois que uma das netas a flagrou jogando pelo celular. “Eu escondi o que pude pois iriam brigar comigo. Mas antes disso acabei com a poupança de uma vida inteira e me endividei. Eu nunca tive dívidas”, conta ela, que vem recebendo atendimento psiquiátrico e psicológico, mas teve o celular “confiscado” pela família.

“Minha neta praticamente está morando aqui para me vigiar. Ainda sobrou a casa onde moro, porque havia transferido para o nome dos meus filhos quando fiquei viúva”.

"Fiquei sem nada"
Luan (nome fictício) ficou sem dinheiro para pagar a pensão do filho; agora conta com o apoio da religião para superar o vício  A história de Cláudia é parecida com a de Luan (*), de 34 anos, que perdeu tudo, incluindo a moto que usava para o trabalho, com as apostas esportivas. “Eu acertava os bolões entre família e amigos e achei que poderia transformar meus palpites em lucros”, afirma.

Jogando pequenos valores e tendo algum retorno financeiro, Luan teve a ideia de buscar mais “respiro” no orçamento, usando parte do salário destinada ao aluguel para apostar nas bets. A escolha por jogos “fáceis” e que pagavam pouco parecia certeira.

“Era o final da pandemia, tudo mais difícil. Como eu tinha dez dias entre a data que eu recebia e a que eu precisava pagar aluguel, pensei que poderia dobrar ou triplicar meu dinheiro. Botar para render, sabe?”, conta, acrescentando que os grupos em redes sociais trazem uma série de dicas e palpites. “Dediquei às apostas em jogos de tênis. Ele é diferente do futebol, sem tantas zebras. Na maioria das vezes os melhores ranqueados vencem. Só que é esporte, e numa dessas apostas grandes perdi todo o meu salário pela primeira vez”.

Sem recursos para o aluguel e as compras do mês, Luan cobriu a primeira perda com cartão de crédito. Mas o que ele chama de “euforia” nunca o abandonou.

Entregador na região metropolitana de Florianópolis, Luan viu uma luz no fim do túnel: vendeu sua moto, adquiriu uma mais barata e apostou novamente para tentar reverter o prejuízo. “Depois que cobri as contas, usei o resto para apostar de novo. Um dia, fiz uma aposta única para recuperar e de novo não deu certo. Nunca mais saí disso”, revela. “Percebi que não tinha nenhum real para almoçar e nem para colocar gasolina na moto para ir trabalhar. Eu sou MEI e a empresa que eu prestava serviços logo me dispensou. Fiquei sem nada”.

Os colegas do grupo de futebol promoveram vaquinhas e o auxiliaram por cerca de três meses, mas, diante de novas apostas e novas perdas, a ajuda ficou escassa.  “Quando eu percebi já estava num buraco sem fundo. Atrasei até a pensão e só não fui preso porque minha ex-esposa percebeu que eu precisava de ajuda”, conta. “Mas não tenho visto o meu filho com a mesma frequência”.

Luan tenta se manter longe de jogos, mas admite ser uma tarefa praticamente impossível. “Eu amo futebol, respiro futebol. Parei de assistir jogos na televisão porque só aparecem as bets, o tempo todo. Todo mundo apostando e feliz e eu sem nada”, acrescenta. “Se eu fosse viciado em bebidas, era só não entrar no bar ou não sair de noite. Acho que seria até melhor. Mas como eu vou fugir das bets e não acessar o celular?”

Enquanto tentam se reerguer, Cláudia e Luan buscam caminhos diferentes. A aposentada se apoia na ajuda profissional particular e é mantida sob rigorosa fiscalização da família.  “Não tenho mais celular”, lamenta.

Após alugar um carro semanalmente para trabalhar como motorista de aplicativo, Luan buscou suporte na religião. O objetivo: equilibrar as contas e alugar uma casa de dois quartos. “Quero voltar a ter um espaço para receber meu filho aos finais de semana”, completa.

(*) nome fictício

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