A psicóloga e terapeuta Telma Lenzi defende que a busca de auxílio em grupos é a melhor forma de enfrentar o problema. “Não vejo internação como solução. Os grupos, sejam eles de apoio ou de familiares, têm um poder de transformação incrível”, afirma.
Segundo ela, outras condições de saúde acabam “empurrando” as pessoas para o jogo. Quadros de ansiedade e depressão, que aumentaram consideravelmente no período pós-pandemia, são comorbidades que deixam os jogadores ainda mais fragilizados.
“O jogo é um caminho onde as pessoas vão buscar satisfação e realização de planos. Mas na realidade é um lugar de ilusão e manipulação e que vai levar à uma situação de decepção”, avalia. “As pessoas estão mais atrapalhadas, mais confusas e buscam alívio imediato, a tal da dopamina”.
Lenzi atua com grupos de pacientes e relata que uma das principais características da pessoa com quadro de ludopatia é o isolamento. “A pessoa custa muito a se perceber como viciada. Se uma pessoa tem poucos relacionamentos em sua rede, terá dificuldades”, afirma. “Ele não tem ninguém para trocar, para viver momentos, para se relacionar. E o jogo parece substituir, mas não substitui”.
Grupo de apoio
O grupo Jogadores Anônimos vem registrando a presença de jovens e adolescentes já com compulsão em bets e cassinos.
“O problema é que hoje o jogo está chegando a quem não jogaria em condições normais. Muitos usam cartão de crédito da família”, afirma Ricardo (nome fictício) que desde 1993 integra o grupo JA no Rio de Janeiro. “Passamos pelos jogos analógicos, loterias, bingos e agora as bets. Quem poderia imaginar que um dia as pessoas de todas as idades poderiam jogar no banheiro, no ônibus, em casa, a qualquer hora?”.
A “irmandade” , como é chamada pelos participantes, já vem atendendo inclusive pessoas de países africanos, como Moçambique e Angola. Dos 54 grupos de Jogadores Anônimos existentes atualmente no Brasil, 25 surgiram apenas nos últimos 18 meses.
Ricardo conta que são realizadas reuniões on-line e presenciais e que todo o anonimato é preservado. A proposta da irmandade é acolher e buscar fazer com que as pessoas larguem o vício.
“Nosso objetivo é que as pessoas parem de jogar para ajudar os outros a também parar. Quando a participação é on-line não controlamos, não registramos e não recolhemos contato de ninguém. É total anonimato. Os encontros presenciais requerem mais esforço”, completa.