Nem sempre a cultura italiana esteve em alta no estado. Assim como os descendentes de alemães, durante e depois da Segunda Guerra Mundial, os falantes de italiano tiveram que conviver com o medo e o estigma negativo decorrente da perseguição promovida pelo governo federal. O uso dos dialetos italianos teve até mesmo que ser estimulado para que não se perdesse em Santa Catarina, conta Mirtes Rigo da Cruz, que preside o Circolo Trentino de Rodeio.
“Era feio falar italiano e o nosso circolo trentino, que já tem 50 anos de existência, realizou um trabalho muito importante de resgate do dialeto trentino. Hoje estamos dando muito valor ao idioma, principalmente por meio das nossas reuniões e apresentações culturais.”
Adimir José Tomelin, de 78 anos, que atua como diretor do pequeno museu mantido pela entidade, explica que as pessoas da comunidade que flagradas falando italiano eram presas e obrigadas pela política a beber óleo diesel. Livros escritos em italiano também foram confiscados e queimados. Ele lembra que entre as 1,3 mil peças relacionadas à colonização do município, estão justamente uma bíblia e um livro de contos que seu avô conseguiu salvar de serem destruídos.
“Ele tinha muitos livros, mas conseguiu esconder esses dois no forro da casa. Um dia eu subi lá, os peguei e mostrei para o meu nono [avô]. Ele disse assim: ‘isso aqui é bom para guardar para a história, por causa da proibição da língua’. Então, eu os peguei e disse para ele que o dia que nós tivéssemos um museu eu os colocaria lá. E assim foi feito.”
Tomelin recorda que, mesmo passada uma década do fim da guerra, o medo de falar italiano ainda permanecia bastante vivo entre a população. “Fizemos uma pequena apresentação cultural pelo estado em dialeto trentino e fomos muito aplaudidos. As pessoas gostaram de ver que estávamos recordando essa tradição. Mas também havia gente que dizia: ‘vocês estão loucos em cantar em italiano, vocês vão para a cadeia’. Ou seja, eles ainda guardavam dentro deles o medo de falar italiano em público.”
Algo inimaginável naqueles anos, as associações voltadas à preservação da cultura atualmente estão presentes até mesmo nos menores municípios do estado. Com pouco mais de 7 mil habitantes, Rio do Oeste, no Vale do Itajaí, conta com uma pequena, mas bem frequentada sede, para reunir os adeptos da cultura trentina na região.
O local é utilizado para festas, reuniões e também oferece a crianças, jovens e adultos, aulas gratuitas de italiano. Durante os encontros, não faltam as comidas típicas dos primeiros colonizadores, como queijos, salames, macarrão e, principalmente, polenta, conforme explica a presidente da entidade, Monique Sara Guber. O município é oficialmente conhecido como Capital Catarinense da Polenta.
“Os italianos gostam de celebrar, comemorar a vida, e não só tomando vinho e conversando, mas comendo, principalmente. E para nós aqui, que somos a terra da polenta, nada melhor que este prato.”
Ela conta que os eventos têm se mostrado tão atrativos que são frequentados até mesmo por pessoas que chegam de fora do município, mas que se encantam pela cultura italiana. “Temos muitos descendentes das famílias de origem, dos primeiros colonizadores, mas também participantes de outras famílias, que foram se agregando aqui ao município e que buscam também o mesmo objetivo que a gente, que é essa questão da cultura. E isso é o que nos motiva, cada vez mais, a dar continuidade, a manter, a nossa língua, as nossas tradições.”
"Mora"
Outra estratégia para levar à frente as tradições dos pioneiros tem sido o resgate da "mora", em que se busca adivinhar a soma dos dedos que o oponente mostra. Monique conta que por meio da modalidade tem buscado atrair o público mais jovem.
“Esta foi uma forma lúdica que achamos para trazer as crianças para o Circolo Trentino e fazer com que possamos estar mais atuantes na nossa comunidade, porque sabemos que é difícil manter a cultura e a tradição.”
Ao que parece, a iniciativa tem mostrado os resultados esperados. Em plena época do videogame e das redes sociais, jovens como Yan Frogel, de 11 anos, e Elena Nichilatti, de 12 anos, não perdem a chance ir ao Circolo Trentino de Rio do Oeste para praticar a modalidade.
O professor Nicanor De Piné, que já foi campeão estadual da modalidade em dez oportunidades, conta com orgulho que com pouco mais de um ano de prática, eles já foram premiados na primeira competição que participaram, inclusive enfrentando oponentes com mais idade. “Eu comecei a dar esse curso aqui e logo eles já conseguiram troféus lá em Joinville. Terceiro e quarto lugares. E é assim que vamos trabalhando para a mora não morrer, porque daqui a pouco só haverá velhos e precisamos passar a tradição para esta piazada nova”, disse.