Dentre os ramos do cooperativismo catarinense, o de infraestrutura possui o segundo maior número de cooperados, perdendo apenas para o de crédito. Tal segmento atua principalmente na geração de energia elétrica e foi essencial para a eletrificação de pequenas cidades e da área rural, em especial no Sul do estado.
"Levar energia para Turvo era uma das promessas de campanha do então candidato a governador Celso Ramos, em 1960", recorda-se o ex-prefeito de Turvo Sebastião Moraes Mattos*, um dos pioneiros na criação das cooperativas de eletrificação. "Ele me chamou e pediu minha ajuda para cumprir a promessa."
Celso Ramos foi eleito e, para honrar o compromisso, recorreu ao cooperativismo. "O governo não poderia dar material para a instalação da rede elétrica para uma empresa. Então, a solução foi criar as cooperativas de eletricidade, que poderiam receber esse material e fazer o trabalho", conta Mattos.
Com base nesse modelo, logo no início dos anos 1960, segundo Mattos, foram criadas várias cooperativas no Sul do estado. Além de Turvo, ele teve participação na constituição das similares de Içara, Morro da Fumaça, Jacinto Machado, Sombrio, Praia Grande, São João do Sul, Treviso, Gravatal, Braço do Norte, São Ludgero, entre outras. A iniciativa foi replicada no Rio Grande do Sul e em outros estados.
"Muita gente deixou seu trabalho de lado para cavar buraco para instalar poste. Todos trabalharam de graça", relembra. "Foi muito trabalho, noites mal dormidas. Eu levava 12 horas de Turvo até Florianópolis. Mas conseguimos. E quando viram que conseguimos energia para Turvo, todo mundo queria."
Exemplo
Para Mattos, as cooperativas foram essenciais para o desenvolvimento da economia da região, opinião compartilhada pelo presidente da Cooperativa de Eletricidade de Praia Grande (Ceprag), Patrique Alencar Homem. Além de Praia Grande, a cooperativa atua nos municípios de São João do Sul e Passo de Torres, todos no Extremo Sul do estado.
"O desenvolvimento dos três municípios se confunde com o crescimento da Ceprag", comenta Homem. "À medida que a cooperativa foi melhorando a distribuição de energia, permitiu que os municípios se desenvolvessem."
A Ceprag foi criada em 12 de junho de 1963. A exemplo das demais cooperativas, surgiu de uma demanda da comunidade local. "Na época, havia apenas um gerador de energia. Quem tinha mais condições, pagava uma taxa para ter essa energia, das 18 às 21 horas. Mas com o surgimento de pequenas indústrias, não havia eletricidade o suficiente para atender a demanda."
Homem conta que os padres tiveram papel importante na consolidação da cooperativa, ao convencerem a população a se associar. A Ceprag foi criada com 74 sócios fundadores, mas esse número cresceu, até atingir os atuais 22 mil associados.
Um passo importante para a cooperativa, segundo seu presidente, foi a construção da subestação, em 2018, somada à possibilidade da compra de energia no mercado livre. Isso não só permitiu melhorar o sistema de distribuição, como oferecer preços melhores aos cooperados.
"Pelo tamanho das concessionárias de energia convencionais, seus consumidores são só um número de protocolo. Na cooperativa, além de ser dono, o associado tem um atendimento mais personalizado. Há uma proximidade maior com a comunidade, o que faz a diferença", comenta.
No caso das sobras da Ceprag, conforme Homem, os associados, em geral, destinam-na para reinvestimento na própria cooperativa, o que possibilitou a reconstrução de todo o sistema.
Apoio
O empresário Alex Gonçalves da Silva mantém desde 2013 uma fábrica de piscinas e banheiras em Praia Grande, com vendas para todo o Brasil. "A primeira ajuda para abrir a fábrica veio da cooperativa, que ligou de imediato a energia e veio ver a demanda. Isso foi feito de forma rápida", comenta. "Hoje ela nos entrega uma energia de qualidade, sem oscilações, que é essencial para nossa atividade."
Silva ressalta que a atuação da cooperativa vai além do fornecimento da eletricidade. "Ela nos socorre no dia a dia, por exemplo, quando precisamos de um caminhão maior para fazer um serviço. Do contrário, teríamos que trazer isso de outras cidades."
Com 94 anos, José Krás da Silva é um dos cooperados mais antigos da Ceprag. A propriedade em que ele vive com uma das filhas é abastecida pela cooperativa, mas nem sempre foi assim, principalmente na época em que ele se dedicava à fumicultura.
"Mudou muita coisa, naquela épica era muito sacrificante, era tudo manual. Trabalhávamos de noite, na estufa, com luz a base de querosene", relembra. "A cooperativa era a única coisa que podia levar o pequeno a chegar mais perto do grande. Era a maneira que a gente conseguia para alcançar mais benefícios."
*NOTA DA REDAÇÃO: Sebastião Moraes Mattos foi entrevistado no dia 15 de agosto para a produção dessa reportagem. No dia 8 de outubro, ele faleceu, aos 86 anos. Aos familiares e amigos, nossos sentimentos.