Enxada e cruz: a importância da fé para os imigrantes


27/06/2025 - 17h53min

A Chiesetta Alpina, construída em Jaraguá do Sul, um dos símbolos da religiosidade italiana

A Chiesetta Alpina, construída em Jaraguá do Sul, um dos símbolos da religiosidade italiana

Outra marca duradoura deixada pelos imigrantes italianos na sociedade catarinense é a religiosidade. Um dos exemplos mais evidentes disso pode ser visto em Nova Trento, município da Grande Florianópolis. Com pouco mais de 13 mil habitantes, a localidade abriga um dos complexos religiosos que mais atraem peregrinos em todo o Brasil, com cerca de 75 mil visitantes por mês.

Enxada e cruz
A estrutura é dedicada àquela que é considerada a imigrante trentina mais famosa do Brasil, Amábile Lúcia Visinteiner, a Santa Paulina. Ela nasceu em Trentino-Alto Ádige, região norte da Itália em 1865 e emigrou para o Brasil aos dez anos de idade, estabelecendo-se mais tarde na cidade de Nova Trento.

Irmã Helena Rosa da Silva, diretora do Santuário de Santa PaulinaDe acordo com a diretora do santuário, irmã Helena Rosa da Silva, as dificuldades encontradas pelos pioneiros trentinos só foram superadas por meio da fé e da persistência no trabalho, características que também ficaram marcadas na história de vida de Santa Paulina.

“Essas duas coisas são muito fortes em todos os italianos que vieram para o Brasil na época. E com ela não foi diferente. Por isso que aqui nessa colina nós temos a Santa Paulina retratada em uma imagem com uma enxada em uma mão e uma cruz na outra. É para dizer o quê? Que o trabalho e a oração estão intimamente ligados, um dá força para o outro. Se você não trabalha, não pode rezar, e se você não reza, não dá para trabalhar, porque não vai ter a força, o ânimo, o entusiasmo, o sonho para poder desenvolver determinado objetivo.”

Ela conta que Amábile é venerada pela caridade e o cuidado que dedicou aos doentes durante toda a vida, no mesmo local onde atualmente está localizado o santuário. “Ela viveu aqui, exatamente nesse chão. Aqui ela viveu, aqui trabalhou, aqui ela foi crescendo, junto com a comunidade”, ressalta.

Em 1890, Amábile também fundou a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, atual administradora do santuário. Ela morreu no ano de 1942 e foi beatificada pelo papa João Paulo II em 1991, em Florianópolis.

Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento“Depois que Santa Paulina foi beatificada esse lugarzinho aqui se transformou. Foi chegando tanta gente que as irmãs não sabiam mais o que fazer para poder atendê-las, porque, claro, a gente não imaginava que ia desencadear um movimento tão grande. E não havia estrutura e nem preparo para isso. A gente foi fazendo as coisas conforme ia surgindo a necessidade. Foram, então, sendo construídos os pequenos restaurantes e lugares onde as pessoas podiam se hospedar de uma forma muito precária na época. Foi tudo muito devagar.”

Atualmente o local abriga todo um complexo religioso, com um santuário com capacidade para 6 mil pessoas e mais de 30 atrações e pontos de visitação, como a réplica da casa em que Santa Paulina viveu, estátuas, museu, lojas, centro comercial, restaurante e hotel.

Chiesetta
Outra estrutura que chama a atenção pela evocação à religiosidade dos italianos que colonizaram o estado é a Chiesetta Alpina. Ela está localizada em Jaraguá do Sul, em uma elevação de 570 metros de altura, de onde é possível avistar grande parte da cidade. A edificação é inspirada na milenar igreja San Simon Apostolo, de Belluno, Itália, e é dedicada ao papa João Paulo I, Albino Luciani, que é natural da mesma região.

O local, que também conta com obras de arte, percurso alusivo à via sacra, salão de eventos, fonte e gruta em veneração a Nossa Senhora de Fátima, foi inaugurado em 2012, quando se celebrou o ano da Itália no Brasil.

Iria Tancon, do Instituto Chiesetta AlpinaIria Tancon, que integra o Instituto Chiesetta Alpina, entidade que administra o local, explica que a igreja é na realidade um monumento da comunidade italiana do município em homenagem a todos os imigrantes que vieram dos Alpes, como trentinos, vênetos e lombardos. Apesar das origens e dos dialetos diferentes, a religiosidade unia e por isso a escolha do formato da estrutura foi por uma igreja.

“Eu posso imaginar tudo o que eles sofreram e que tiveram que enfrentar. E o que deu coragem, o que deu a constância para eles, foi a fé, que foi o maior patrimônio que trouxeram nas bagagens. Foi isso que fez com que superassem as dificuldades e que permitiu a nós, descendentes, chegarmos esse ponto que estamos hoje, de contribuir de forma tão significativa para a cultura e o desenvolvimento de Santa Catarina.”

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