Ainda no Vale do Itajaí, a presença de imigrantes da península italiana se fez sentir de forma intensa em outra colônia, comumente reconhecida pela sua identidade germânica. A antiga colônia Blumenau, localizada no Médio Vale do Itajaí-Açu, foi um dos núcleos que mais recebeu imigrantes de língua italiana no estado.
Conforme Andrey José Taffner Fraga, que estuda a colonização do estado e também atua como coordenador dos círculos trentinos em Santa Catarina e Paraná, a Colônia Blumenau foi formada no ano de 1850 por imigrantes dos estados que hoje fazem parte da Alemanha, mas a partir de 1875 passou a ser ocupada também por trentinos, provenientes do Tirol do Sul (então pertencente ao Império Austro-Húngaro), e, posteriormente, por vênetos e lombardos.
Uma curiosidade apontada pelo pesquisador é que inicialmente Hermann Blumenau, fundador e administrador da colônia, não se mostrou simpático ao recebimento de colonos italianos, que considerava “pouco trabalhadores” e “criadores de confusão”.
“Isso ficou, inclusive, registrado em cartas, mas ele se viu obrigado a receber esses imigrantes, porque o fluxo de alemães a partir de 1874 diminuiu consideravelmente. Então, naquela situação, a colônia precisava de braços, precisava de trabalhadores, e, mesmo não gostando muito, ele aderiu à ideia, ele recebeu imigrantes de língua italiana.”
Mas Fraga ressalta que os registros também revelam que o Hermann Blumenau mudou esta percepção ao longo da vida. “No fim, ele percebeu que eles somaram e muito à colônia Blumenau, que ajudaram e muito no seu desenvolvimento.”
Ele conta que o que motivou a vinda dos italianos era a esperança de prosperar por meio da aquisição de terras, algo que lhes era quase impossível em sua terra natal. “Passavam-se gerações de famílias e eles não conseguiam progredir economicamente, financeiramente na Europa. E aqui no Brasil, apesar das dificuldades que foram muitas, apesar dos desencontros, das promessas não cumpridas, eles receberam terra a baixo custo. Terra que eles poderiam pagar, inclusive, com trabalho.”
E o recebimento da terra, disse, alavancou o desenvolvimento das famílias pioneiras e dos seus descendentes. “Isso mudou completamente a situação socioeconômica deles, a ponto de muitos pesquisadores indicarem que essas comunidades de italianos viviam aqui muito melhor do que os que haviam ficado na Europa, pelo menos até a Segunda Guerra Mundial.”
A Grande Imigração concentrou-se nos anos 1875 e 1876, sendo significativa até 1892. Durante esse período assentaram-se na Colônia Blumenau 1.470 trentinos e 1.293 italianos.
Expansão pelo vale
A chegada destes imigrantes deixou legado permanente no perfil de Blumenau. Segundo o recenseamento realizado no município no ano em 1927, do total de 98.663 habitantes existentes na época, 53% declararam como língua materna o alemão, mas 16% apontavam o italiano, ou seus dialetos, com os restantes apontando idiomas como português, polonês, russo, francês, holandês e sueco.
A proporção de italianos na antiga colônia, entretanto, pode ser ainda maior, tendo em vista que do seu território original surgiram municípios como Rodeio, Rio dos Cedros e Ascurra. Posteriormente, os filhos e netos destes imigrantes subiram o Vale do Itajaí em direção à Serra Geral e também formaram cidades como Rio do Oeste, Laurentino, Taió, Salete, Apiúna, entre outras.
Atualmente, apesar da prevalência da cultura alemã, a presença dos descendentes italianos é marcante na identidade do município e vem ganhando cada vez mais força entre seus habitantes, destaca Fraga.
“Eles chegaram em grande número e mudaram a demografia da colônia. Depois essa localidades se emanciparam, tornaram-se cidades, mas até hoje, mesmo aqui no atual município de Blumenau, a presença dos descendentes italianos é muito relevante. Ela pode ser percebida pelos movimentos, pelas associações, pelas iniciativas, nas empresas, o intercâmbio que existe com a Itália em vários níveis.”