Comunicação

“Não Foi a Roupa”: exposição na Alesc provoca reflexão sobre a responsabilização de vítimas de violência sexual


Simone Sartori
12/03/2026 - 08h11min

A exposição acontece na Galeria Ernesto Meyer Filho, na Alesc.

A exposição acontece na Galeria Ernesto Meyer Filho, na Alesc.

FOTO: Bruno Collaço / Agência Alesc

A Galeria Ernesto Meyer Filho transformou-se em um espaço de silêncio e reflexão na Alesc. Na tarde de terça-feira (10), foi aberta a exposição “Não Foi a Roupa”, que convida o público a olhar com mais atenção para histórias que, muitas vezes, permanecem invisíveis e para um questionamento que insiste em ferir: a tentativa de responsabilizar vítimas de violência sexual pelo que vestiam. A exposição é uma ação de reflexão promovida pela Bancada Feminina da Alesc em parceria com a Comissão da Advocacia Feminina da Associação dos Advogados Criminalistas de Santa Catarina (AACRIMESC).

A mostra apresenta peças simples, discretas e infantis, evidenciando uma verdade difícil, mas necessária: a violência sexual não nasce da aparência, mas da escolha de quem agride. O foco, portanto, desloca-se da culpa para o consentimento, da suspeita para o acolhimento. Inspirada em iniciativas internacionais, a exposição integra uma proposta mais ampla de conscientização.

A deputada Luciane Carminatti (PT) destacou que a exposição evidencia que não foi a roupa, o horário, o local ou a idade. “Queremos, com essa exposição, debater a causa da violência contra as mulheres, que, para mim, tem uma resposta: o machismo patriarcal estrutural. Esse machismo não muda apenas com a aprovação de uma lei, com uma exposição ou com um seminário, porque só mudamos a cultura construindo outra cultura.”

A deputada Paulinha (Podemos) afirmou: “Tenho me perguntado, nos últimos tempos, se temos evoluído ou se estamos nos tornando piores. Esperamos por uma mudança, mas tememos que ela não nos alcance. Não consigo passar por essa exposição sem me comover e, ao mesmo tempo, me revoltar com essa situação. Vivemos um tempo de absoluta negação. Precisamos admitir que somos um país machista e precisamos desideologizar a pauta da violência.”

Ao lado das peças expostas, materiais informativos e narrativas reforçam a importância da rede de apoio, da denúncia e da educação como caminhos para enfrentar a cultura do estupro. O objetivo é sensibilizar, mas também provocar mudanças concretas nas atitudes individuais e nas estruturas institucionais.

“Não Foi a Roupa” apresenta-se, assim, como um convite coletivo à empatia e à responsabilidade social. Em cada peça exibida, há um chamado para reconhecer a dignidade das vítimas e reafirmar um princípio essencial: a violência nunca se justifica. A responsabilidade é sempre de quem agride. Mais do que um ato simbólico, a exposição reforça a urgência de construir uma cultura que escute, proteja e previna, em vez de julgar ou silenciar.

A mostra pode ser visitada até o dia 16 de março e integra as atividades alusivas ao Mês da Mulher.

Sarau “Quando a Escrita Floresce, a Mulher se Revela”
Seguindo a programação de atividades voltadas ao Dia Internacional da Mulher, após a abertura da exposição, a Alesc foi palco de um momento dedicado à literatura, à sensibilidade e à força da expressão feminina. O sarau “Quando a Escrita Floresce, a Mulher se Revela” reuniu escritoras, artistas, convidadas e apreciadores da cultura em uma celebração marcada por poesia e reconhecimento.

O evento destacou a escrita como instrumento de voz, identidade e transformação. Durante a noite, diversas autoras compartilharam poemas e reflexões que evidenciaram o universo feminino, suas lutas, sentimentos e conquistas.

Um dos momentos de destaque foi a entrega de homenagens a personalidades que contribuem para o fortalecimento da cultura e do protagonismo feminino. As deputadas Luciane Carminatti e Paulinha foram homenageadas pelo apoio a iniciativas culturais e pela valorização das mulheres na sociedade.

A deputada Luciane Carminatti destacou que o mês de março representa a diversidade do que são as mulheres. “Mas, quando olhamos para mulheres escritoras que trazem para dentro da literatura a produção acadêmica e intelectual com o nome e o rosto de mulher, isso é fundamental. Muitas vezes contamos a história sob a ótica masculina e não enxergamos que as mulheres estão em todos os espaços. Não há como falar deste Estado, do crescimento ou das políticas públicas sem o rosto das mulheres. Agora eu pergunto: quem são as mulheres que vivem e fazem o nosso Estado? Nós as conhecemos? Nós lemos sobre elas? Precisamos enaltecer essa produção linda de escritoras, mulheres produzindo narrativas também sob a ótica feminista e feminina, como assim desejarem.”

A programação também incluiu a entrega da Medalha e do Certificado Antonieta de Barros à Marianne Cristina Tillmann, honraria concedida a mulheres que se destacam por suas contribuições à cultura, à educação e ao desenvolvimento social, mantendo viva a memória e o legado de Antonieta de Barros.

Outro ponto relevante foi a entrega de uma Moção de Aplausos à Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Santa Catarina (AJEB-SC), em reconhecimento ao trabalho desenvolvido pela entidade na promoção da literatura feminina e no incentivo à produção cultural no estado para as jornalista Juliana Pereira, Sande Moraes e Ivonita Di Concílio.

A presidente da AJEB-SC, Sande Moraes, ressaltou o significado do encontro como espaço de expressão e valorização das mulheres que escrevem. Segundo ela, o sarau representa um convite para que as mulheres ocupem seus lugares de fala por meio da palavra, revelando histórias, sentimentos e a força feminina capaz de transformar o mundo. “Nós, que somos mulheres jornalistas, sabemos o quanto é difícil a nossa trajetória. Hoje, você, que é jovem, já encontra mais espaço, mas, quando iniciei no jornalismo, era muito difícil, porque era considerado um lugar de homens, e não de mulheres”, comentou.

A noite foi marcada por leituras, apresentações musicais e momentos de integração entre as participantes, reafirmando a literatura como espaço de encontro, resistência e celebração da voz feminina.

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